mai 07

Capítulo 11 – O Jugo da Religião

Capítulo 11 – O Jugo da Religião

 

Naquele tempo, respondendo Jesus, disse: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim te aprouve. Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.

Mateus 11:25-30

 

Quando eu estava na idade de receber a confirmação e me tornar membro efetivo da Igreja, me disseram para escolher uma passagem da Bíblia que expressasse minha aproximação pessoal à mensagem bíblica e à Igreja cristã. Cada confirmando era obrigado a fazer o mesmo, assim como recitar a passagem perante a congregação. Quando escolhi as palavras,Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos”, me perguntaram com um quê de perplexidade, e até mesmo ironia, o por quê de eu ter escolhido essa passagem em particular. Eu vivia sob boas condições, e, tendo apenas quinze anos, sem nenhum cansaço ou opressão aparentes. Não consegui responder naquela época; me senti um pouco embaraçado, mas basicamente com razão. E eu tinha razão, de fato; toda criança está certa ao responder imediatamente a essas palavras; todo adulto está certo ao responder a elas em todos os períodos de sua vida, e sob todas as condições de sua história interna e externa. Essas palavras de Jesus são universais, e servem para qualquer ser humano em qualquer situação humana. Elas são simples; elas pegam no coração do primitivo assim como no do profundo, perturbando a mente do sábio. Toda palavra de Jesus praticamente tem esse caráter, marcando a diferença entre Ele como o originador, e os intérpretes dependentes, discípulos e teólogos, santos e pregadores. Voltando à primeira vez da passagem na minha vida, da minha primeira escolha, me senti apreendido por ela, mas infinitamente mais embaraçado pela sua majestade, profundidade e significado inesgotável. Nossa tarefa frente a palavras como essas é óbvia: devemos apontar o poder delas sobre nossas almas; devemos explicar por que, em sua força emocional, a força de uma verdade última é envolvida; e devemos nos atentar a ver nossa situação humana na luz delas.

Três questões, despertadas pelas palavras de Jesus, devem ser feitas, e as respostas implícitas em Suas palavras devem ser interpretadas. Qual é o cansaço e a opressão dos quais podemos encontrar descanso através dEle? Qual é o jugo suave e o fardo leve que Ele colocará sobre nós? Porque é Ele e somente Ele que pode dar tal descanso às nossas almas?

“Todos os que estais cansados e oprimidos…” essa fala é direcionada a todos os homens, embora nem todos a sintam da mesma maneira. É a situação humana geral que cansa e oprime sob um jugo muito difícil de ser suportado. Que tipo de peso é esse? Podemos pensar primeiramente nos fardos e opressões que a vida cotidiana nos impõe. Mas isso não é indicado no nosso texto. Jesus não nos diz que Ele irá facilitar os fardos e opressões da vida e do trabalho. Como Ele poderia, mesmo que Ele quisesse? Cheguemos nós até Ele ou não, o perigo de doenças ou de desemprego não diminuem, o peso do nosso trabalho não se torna menos, o destino de ser um refugiado, fugindo de um país para outro, não é mudado; o horror das ruínas, feridas, e da morte caindo do céu não pára; e a tristeza da morte de amigos ou pais ou crianças não é superada. Jesus não pode e não promete mais prazeres e menos dores àqueles que Ele pede para que venham a Ele. Ao contrário, algumas vezes Ele promete a esses mais dores, mais perseguições, mais ameaças de morte, ou a cruz, como Ele chama. Tudo isso não é o fardo ao qual Ele se refere.

Nem mesmo é o fardo do pecado e da culpa, como poderia pensar alguém educado na interpretação cristã tradicional do trabalho de Cristo. Nada parecido com isso aparece nas palavras de Jesus. Tomando sobre si Seu jugo suave não significa levar o pecado mais suavemente ou encarar a culpa menos seriamente. Jesus não diz àqueles que vem até Ele que seus pecados não são tão importantes quanto parecem. Ele não lhes dá uma consciência mais tranqüila em relação às suas falhas e ofensas. Pelo contrário, Ele afia as consciências ao mais alto grau possível em praticamente cada uma de Suas palavras. Jesus condena pecados os quais a teologia tradicional de Sua época nem mesmo considerava como pecados. Não é esse o fardo ao qual Ele se refere.

O fardo que Ele deseja tirar de nós é o fardo da religião. Esse é o jugo da lei, imposto às pessoas de Seu tempo pelos professores religiosos, os sábios e entendidos, como Jesus se refere a eles nas nossas palavras, os Escribas e Fariseus, como eram comumente chamados. Os cansados e oprimidos são aqueles que estão suspirando sob o jugo da lei religiosa. E Jesus dará a eles o poder de superar a religião e a lei; o jugo que Ele dá é um “novo ser” acima da religião. O que eles aprenderão com ele é a vitória sobre a lei dos sábios e entendidos, e a lei dos Escribas e Fariseus.

Como isso nos preocupa? Por que isso preocupa todos os homens, em todas as situações? Isso nos preocupa porque, com todos os seres humanos, estamos suspirando debaixo da lei, debaixo de uma lei que é religião e uma religião que é lei. Essa é a profundidade da palavra de Jesus; essa é a verdade, implícita no poder emocional de Suas palavras. O homem cansa e sente-se oprimido, pois ele é o ser que sabe sobre sua finitude, sobre sua transitoriedade, sobre o perigo de viver, e sobre o caráter trágico da existência. Medo e ansiedade são a herança de todas as pessoas, como Paulo sabia quando olhou para os judeus e para os pagãos. A inquietação conduz o homem durante toda a sua vida, como soube Agostinho. Um elemento oculto de desespero se encontra na alma de todo homem, como o grande protestante dinamarquês Kierkegaard descobriu. Não há gênio religioso, nem um observador perspicaz do abismo da alma humana, ninguém capaz de ouvir os sons de seu coração, que não testemunharia esta visão da natureza humana e da existência humana. Divisões e lacunas estão em toda alma humana: por exemplo, nos sabemos que somos mais que pó, porém também sabemos que seremos pó. Sabemos que pertencemos à uma condição maior do que dos nossos desejos e necessidades animais; porém sabemos que devemos abusar da ordem maior em função da nossa natureza menor. Sabemos que somos apenas membros menores do mundo espiritual; porém, queremos ser o todo e nos colocar como o ponto central do mundo.

Isso é o homem; e por conta de isso ser o homem, existe religião e lei. A lei da religião é a grande tentativa do homem superar sua ansiedade, inquietação e desespero, para fechar o vazio dentro de si, e para alcançar a imortalidade, espiritualidade e perfeição. Então ele cansa e se oprime debaixo da lei religiosa em pensamento e em ação.

A lei religiosa exige que ele aceite idéias e dogmas, que ele acredite em doutrinas e tradições, a aceitação de o que é a condição da sua salvação da ansiedade, desespero e morte. Então ele tenta aceitá-las, embora elas possam ser estranhas ou dúbias para ele. Ele cansa e se oprime debaixo das exigências religiosas de acreditas em coisas que ele não pode acreditar. Por fim, ele tenta escapar da lei da religião. Ele tenta jogar fora o jugo pesado da doutrina imposta pelas autoridades da igreja, professores ortodoxos, parentes beatos, e tradições instituídas. O homem se torna crítico e cético. Ele se livra do jugo; mas ninguém pode viver no vazio do mero ceticismo, então ele retorna ao velho jugo, numa espécie de fanatismo auto-torturante e tenta impor o mesmo a outras pessoas, a seus filhos ou pupilos. Ele é guiado por um desejo inconsciente de vingança, por conta do fardo que ele colocou sobre si mesmo. Muitas famílias são desfeitas por tragédias dolorosas, e muitas mentes são quebradas por essa atitude dos pais, professores e sacerdotes. Outros, incapazes de encarar o vazio do ceticismo, encontram novos jugos fora da igreja, novas leis doutrinárias sob as quais começam a cansar: ideologias políticas as quais eles propagam com um fanatismo religioso; teorias científicas as quais eles defendem com um dogmatismo religioso; e expectativas utópicas que eles pronunciam como a condição para a salvação do mundo, forçando nações inteiras sob o jugo de suas crenças que são religiões, até mesmo se estas pretendem destruir a religião. Estamos todos cansados sob o jugo da religião; todos nós, às vezes, tentamos jogar fora velhas ou novas doutrinas ou dogmas, mas após pouco tempo retornamos, novamente escravizando a nós e a outros na servidão.

O mesmo é verdade nas leis práticas da religião. Elas exigem atividades rituais, a participação em iniciativas religiosas, e o estudo de tradições religiosas, orações, sacramentos e meditações. Elas exigem obediência moral, auto-controle e ascetismo desumano, devoção ao homem e coisas além das nossas possibilidades, rendição à idéias e deveres além do nosso poder, auto-negação ilimitada, e auto-perfeição ilimitada: a lei religiosa exige a perfeição em todos os aspectos. E nossa consciência concorda com essa exigência. Mas a divisão em nosso ser deriva disso: que a perfeição, embora seja verdadeira, está além de nós, contra nós, nos julgando e condenando. Tentamos então nos livrar as exigências rituais e morais. As negligenciamos, odiamos, as criticamos; alguns de nós mostram uma indiferença cínica diante da lei moral e religiosa. Mas desde que o mero cinismo é tão impossível como o mero ceticismo, retornamos às velhas ou novas leis, nos tornando mais fanáticos do que nunca, e tomando um jugo de lei sobre nós, que é mais auto-desafiante, mais cruel contra nós mesmos, e mais dispostos a coagir outras pessoas sob o mesmo jugo em nome da perfeição. O próprio Jesus torna-se para esses perfeccionistas, puritanos e moralistas um professor da lei religiosa, colocando sobre nós o fardo mais pesado de todos os fardos, o fardo da Sua lei. Mas essa é a maior distorção possível da idéia de Jesus. Essa distorção pode ser encontrada nas idéias daqueles que O crucificaram porque Ele quebrou a lei religiosa, não por fugir dela como os cínicos saduceus, mas por subjugá-la.

Estamos todos permanentemente em perigo de abusar de Jesus ao dizer que Ele é o fundador de uma nova religião, e o condutor de uma outra lei mais refinada e mais escravizadora. E então vemos em todas as igrejas cristãs o cansaço e a opressão de pessoas que são chamadas cristãs, cristãos sérios, sob inúmeras leis que elas não podem cumprir, das quais elas fogem, às quais elas retornam, ou as quais elas substituem por outras leis. Esse é o jugo do qual Jesus quer nos libertar. Ele á mais do que um sacerdote, ou um profeta, ou um gênio religioso. Todos estes nos submetem à religião. Jesus nos liberta da religião. Eles fazem novas leis religiosas; ele subjuga a lei religiosa.

“Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim … Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.” Essa fala não indica uma diferença quantitativa, um pouco mais suave, um pouco mais leve. A fala indica uma contradição! O jugo de Jesus é suave em si mesmo, pois subjugou a lei, e substitui o cansaço e a opressão por descanso em nossas almas. O jugo da religião e da lei pressupõe todas essas lacunas e vazios nas nossas almas que nos levam à tentativa de subjugá-los. O jugo de Jesus está além dessas lacunas e vazios. Esse jugo os vence sempre que aparecem e sejam recebidos. Não é uma nova exigência, uma nova doutrina ou uma nova moral, mas sim uma nova realidade, um novo ser e um novo poder de transformar a vida. Jesus chama isso de jugo, Ele quer dizer que vem de cima e nos alcança com força salvífica; se Ele chama o jugo de suave, Ele quer dizer que isso não é uma questão do nossa ação e esforço, mas sim que isso nos é dado antes de qualquer coisa que possamos fazer. Esse jugo é essência, poder, realidade, conquistando a ansiedade e desespero, o medo e a inquietação da nossa existência. É aqui, entre nós, no meio da nossa tragédia pessoal e da tragédia da história. Repentinamente, na luta mais difícil, esse jugo aparece como uma vitória, não alcançada por nós mesmo, mas presente além da expectativa e da luta. Repentinamente, somos alcançados por uma paz que está acima da razão, ou seja, acima da nossa procura teórica pela verdade, e acima do nosso empenho prático pelo bem. A verdade – ou seja, a verdade da nossa vida e da nossa existência – nos alcançou. Sabemos que agora, nesse momento, estamos na verdade, a despeito de toda a nossa ignorância sobre nós e nosso mundo. Não nos tornamos mais sábios e entendidos em qualquer sentido; ainda somos crianças em entendimento. Mas a verdade da vida está em nós, com uma certeza iluminadora, nos unindo com nós mesmo, nos concedendo uma felicidade grande e que descansa. E o bem, o bem último, que não é o bem para alguma coisa, mas o bem em si próprio, nos alcança. Sabemos que, nesse momento, estamos no bem, a despeito de toda a nossa fraqueza e maldade, a despeito do caráter fragmentário e distorcido do nosso Ser e do mundo. Não nos tornamos mais morais ou santificados; ainda pertencemos a um mundo que está sujeito ao mal e à auto-destruição. Mas o bem da vida está em nós, nos unindo com o bem de tudo, concedendo-nos a abençoada experiência do amor universal. Se isso deve acontecer, e em tal medida, devemos alcançar nossa eternidade, o padrão mais alto e o mundo espiritual ao qual pertencemos, e do qual estamos separados na nossa existência normal. Devemos ser além de nós mesmo. O novo ser nos conquistaria, embora o velho ser não desapareceria.

Onde podemos sentir essa nova realidade? Não podemos encontrá-la; mas ela pode nos encontrar. Ela tenta nos achar durante toda a nossa vida. Ela está no mundo; carrega o mundo; e é a causa e o fato de o nosso Ser e nosso mundo ainda não terem sido lançados na absoluta auto-destruição. Embora essa realidade esteja escondida debaixo da ansiedade e desespero, sob a finitude e a tragédia, ela está em tudo, em almas e corpos, pois toda vida deriva dela. O novo ser significa que o velho ser ainda não se destruiu completamente; que a vida ainda é possível; que nossas almas ainda tem força para ir adiante; e que o bem e a verdade não estão extintos. A nova realidade está presente, e nos encontrará. Nos deixemos ser encontrados. Ela é mais forte que o mundo, embora seja quieta, mansa e humilde.

Esse é o significado do chamado de Jesus, “Vinde a mim.” Pois nEle esse novo ser está presente de uma maneira que determina a Sua vida. Aquilo que está escondido em todas as coisas, o que aparece para nós às vezes nas grandes elevações da nossa alma, é o poder formador dessa vida. É a singularidade e o mistério do Ser de Jesus, a personificação, o completo aparecimento do Novo Ser. Esta é a razão pela qual Ele pode dizer palavras que nenhum profeta ou santo jamais disse: que ninguém conhece a Deus a não ser por Ele e aqueles que recebem seu conhecimento através dEle. Essas palavras certamente não significam que Ele impõe uma nova teologia ou uma nova religião sobre nós. Ao invés disso, elas significam que Ele é o Novo Ser no qual todos podem participar, pois é universal e onipresente. Por que Ele pode se proclamar manso e humilde de coração depois de ter dito tais palavras sobre a Sua singularidade, palavras que, na boca de qualquer outro, poderiam ser uma blasfêmia arrogante? É porque o Novo Ser que O formou não foi criado por Ele. Ele é criado pelo Novo Ser. O Novo Ser O encontrou, e deve nos encontrar. E desde que Seu Ser não é o resultado de seu esforço e trabalho, e desde que também não é servidão às leis religiosas, mas sim a vitória sobre a religião e a lei que faz a Sua singularidade, Ele não impõe a religião e a lei, fardos e jugos, sobre os homens.

Poderíamos rejeitar o Seu chamado com ódio se Ele tivesse nos chamado para a religião cristã, ou para as doutrinas cristãs, ou para a moral cristã. Não aceitaríamos a sua alegação de mansidão, humildade e dar descanso às nossas almas, se Ele nos desse novos comandos para pensar e agir. Jesus não é o criador de outra religião, mas o vitorioso sobre a religião; Ele não faz outra lei, mas conquista a lei. Nós, ministros e professores do cristianismo, não chamamos você para o cristianismo, mas sim para o Novo Ser do qual o cristianismo deveria ser uma testemunha e nada mais, não se confundindo a si mesmo com esse Novo Ser. Esqueça todas as doutrinas cristãs; esqueça suas próprias certezas e dúvidas, quando você ouvir o chamado de Jesus. Esqueça toda a moral cristã, suas conquistas e suas falhas, quando você for até Ele. Nada é exigido de você, nenhuma ideia de Deus, e nenhuma bondade em você mesmo, nem que você seja religioso, cristão, sábio, nem mesmo moral. O que lhe é exigido é que seja apenas aberto e disposto a aceitar o que lhe é dado, o Novo Ser, o ser de amor, justiça e verdade, como é manifesto nEle. Aquele o qual o jugo é suave e Aquele o qual o fardo é leve.

Deixem-me fechar, como comecei, com uma fala pessoal. Acreditem em mim, vocês que se dizem são religiosos e cristãos. não valeria a pena ensinar o cristianismo se se tratasse apenas do cristianismo! (Pode não valer a pena ensinar o cristianismo, se for para o bem do cristianismo.) E acreditem em mim, você que é afastado da religião e mais longe ainda do cristianismo, não é nosso propósito torná-lo religioso e cristão quando interpretamos o chamado de Jesus para nosso tempo. Chamamos Jesus de o Cristo não porque Ele trouxe uma nova religião, mas porque Ele é o fim da religião, acima da religião e da irreligião, acima do cristianismo e do não-cristianismo. Nós propagamos o Seu chamado porque este é o chamado para todo homem em todo o tempo de receber o Novo Ser, que esconde o poder salvífico em nossa existência, que nos tira do cansaço e da opressão, e dá repouso às nossas almas.

Não pergunte nesse momento o que devemos fazer ou devemos seguir do Novo Ser, do descanso de nossas almas. Não pergunte; pois você não pergunta como os bons frutos saem da bondade de uma árvore. Eles saem; ação segue o ser, e novas ações, melhores ações, ações mais fortes, seguem novos seres, melhores seres, seres mais fortes. Nós e nosso mundo seriam melhores, mais verdadeiros e justos, se houvesse mais descanso para almas no nosso mundo. Nossas ações seriam mais criativas, mais conquistadores, conquistando a tragédia do nosso tempo, se crescessem em um nível mais profundo da nossa vida. Pois a profundidade da nossa criatividade é a profundidade na qual estamos quietos.

mai 03

Capítulo 10: Experimentando a Santidade

Capítulo 10: Experimentando a Santidade

 

 No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi também ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono; e o seu séquito enchia o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas; com duas cobriam os seus rostos, e com duas cobriam os seus pés, e com duas voavam. E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória. E os umbrais das portas se moveram à voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça. Então disse eu: Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios; os  meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos. Porém um dos serafins voou para mim, trazendo na sua mão uma brasa viva, que tirara do altar com uma tenaz; E com a brasa tocou a minha boca, e disse: Eis que isto tocou os teus  lábios; e a tua iniqüidade foi tirada, e expiado o teu pecado. Depois disto ouvi a voz do Senhor, que dizia:

A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Então disse eu: Eis-me aqui, envia-me a mim. Então disse ele: Vai, e dize a este povo: Ouvis, de fato, e não entendeis, e  vedes, em verdade, mas não percebeis.

Engorda o coração deste povo, e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os olhos; para que ele não veja com os seus olhos, e não ouça com os seus ouvidos, nem entenda com o seu coração, nem se converta e seja sarado. Então disse eu: Até quando Senhor? E respondeu: Até que sejam desoladas as cidades e fiquem sem habitantes,

 e as casas sem moradores, e a terra seja de todo assolada. E o SENHOR afaste dela os homens, e no meio da terra seja grande o desamparo. Porém ainda a décima parte ficará nela, e tornará a ser pastada; e como o carvalho, e como a azinheira, que depois de se desfolharem, ainda ficam firmes, assim a santa  semente será a firmeza dela. 

Isaías 6

 Esse é um dos maiores capítulos do Antigo Testamento. Ele revela claramente a essência da Religião Bíblica. O profeta descreve a visão da sua vocação, e imagens que expressam simultaneamente sua experiência fundamental de Deus, sua interpretação da existência humana, e sua concepção de missão de profeta. Sua experiência de Deus é um experimentar da santidade de Deus. Ele interpreta a condição humana como impura, e incapaz de encarar a Deus. A missão do profeta é paradoxalmente definida contra o sentido natural da profecia. Essas idéias caminham juntas, e talvez compreendam a mais alta expressão jamais dada ao espírito profético.

O profeta não descreve a Deus de maneira alguma. Ele fala somente do séquito que enchia o templo, dos anjos que cercavam o trono do Senhor, do abalo do fundamento, e da fumaça que encheu a casa. Dessa maneira, ele indica que a revelação de Deus é ao mesmo tempo o acobertar de Deus. Deus só pode se revelar permanecendo encoberto. Mas mesmo a revelação encoberta faz Isaías sentir que está perecendo. Encarar a Deus, mesmo que seja uma mera aproximação de Seu âmbito, ainda que o próprio Deus permaneça encoberto, significa a aniquilação do ser humano.

O mesmo sentimento é expresso no clamor do serafim. “Santo” tem um duplo significado, como o contexto mostra claramente. Significa a majestade com a qual o mundo está repleto; e significa pureza contra a impureza humana. Glória sem pureza é o caráter de todos os deuses pagãos. E pureza sem glória  é o caráter de todas as ideias humanísticas de Deus. O humanismo transformou a inacessibilidade de Deus na sublimidade de Seus comandos morais. O humanismo esqueceu que a majestade de Deus, como vivida pelo profeta, implica no abalo dos fundamentos onde quer que Ele apareça, e o véu de fumaça onde quer que Ele Se mostre. Quando Deus é identificado com algum elemento da natureza humana, como no humanismo, o encontro terrível e aniquilador com a sua majestade torna-se impossível. Mas “Santo” também significa perfeição moral, pureza, bondade, verdade e justiça. A glória de Deus pode preencher o mundo todo, somente porque Ele é santo nesse duplo sentido. A glória dos deuses que não são santos nesse duplo sentido somente pode preencher um país, uma família ou tribo, uma nação ou estado, ou algum âmbito da vida humana. Consequentemente, eles não possuem a verdade e justiça e pureza do Deus que É realmente Deus. Eles são demônios aspirando à santidade, mas são excluídos desta, pois sua glória é majestade sem pureza. Portanto, vamos dizer, principalmente agora, “só Tu és Santo!”.

O profeta confessa que ele é um homem de lábios impuros, e que vive no meio de um povo de lábios impuros. Ele enfatiza seus lábios, pois seu trabalho é pregar; mas a impureza de seus lábios simboliza a impureza de toda a sua existência, e da existência dos indivíduos e sociedade como um todo. Isaías mostra um discernimento profundo quando se identifica com seu povo impuro, no momento exato em que ele é valorizado em sua visão excepcional. A diferença entre religião mística e profética está nesse discernimento. Pois mesmo em um grande êxtase, um profeta não esquece o grupo social a qual pertence, e seu caráter impuro que não pode ser esquecido. Consequentemente, o êxtase profético, ao contrário do êxtase místico, nunca é um fim em si mesmo, mas sim um meio de receber os comandos divinos que devem ser pregados ao povo. A visão de Isaías revela as duas condições para a existência profética. Os lábios do profeta devem ser primeiramente purificados pelo fogo. Ele pode então ouvir a voz de Deus, a condição para ser enviado por Deus. Ninguém pode ser profeta de Deus por meio de sua própria força; e ninguém pode absolver a si mesmo. Somente o poder da Santidade Divina, tendo tocado nossa existência, pode nos trazer para perto de Deus. Algo da nossa existência, pecado, iniquidade, ou impureza deve ser queimado, deve ser aniquilado. Somente depois desse aniquilamento Deus pode falar para nós, e através de nós. Mas como e quando Ele fala para nós não depende de nós. Isaías não produziu a visão ou a purificação. Ele foi tomado pelo terror e pelo espanto. E ele teve que agir. Quando Deus pergunta, “quem irá por nós?” Deus espera pela resposta. Ele não obriga. A decisão de Isaías de ir deve ser livre. Liberdade de decisão é a segunda condição para a existência. Um profeta deve decidir se ele vai ou não se dedicar à tarefa. A respeito do nosso destino e vocação somos livres; a respeito da nossa relação com Deus somos impotentes. A majestade de Deus é evidente em ambos os casos.

O profeta então descreve o conteúdo dos comandos divinos. “Engorda o coração deste povo, e faze-lhe pesados os ouvidos, e fecha-lhe os olhos”. Nossos sentimentos morais naturais se recusam a aceitar tal paradoxo. Pois se falamos, queremos ser ouvidos; e quando pregamos, queremos converter e curar. Mas o profeta aceita o comando divino. E quando seu sentimento natural leva-o a perguntar, “Até quando?” ele recebe a resposta, “Até que sejam desoladas as cidades e fiquem sem habitantes, e as casas sem moradores, e a terra seja de todo assolada”. Não é expressa nenhuma esperança ou promessa. Qual o significado desse paradoxo? Significa que os verdadeiros profetas são os instrumentos de Deus na realização de Seu julgamento contra a humanidade. Eles são instrumentos na medida em que a palavra profética sempre excita a oposição do homem a respeito tanto de sua existência vital e de sua existência moral e religiosa – de fato, especialmente a respeito de sua existência religiosa.

Todos desejam falsos profetas, que, por meio da glorificação de seus deuses, glorificam seus seguidores e a si mesmos. O ser humano busca ser lisonjeado em relação a seus desejos e virtudes, seus sentimentos religiosos e atividades sociais, suas vontades de poder e esperanças utópicas, sua sabedoria e amor, sua família e raça, sua classe e nação. E um falso profeta sempre pode ser encontrado para glorificar o demônio que eles adoram. Mas quando a voz do falso profeta se levanta, eles fecham seus ouvidos, contradizem o que este diz, e por fim perseguem-no e o matam, pois não são capazes de receber sua mensagem. A ordem perdura até que as palavras do profeta sejam cumpridas, e as cidades sejam destruídas, e a terra desolada.

Estamos todos ansiosos pelo espírito profético. Estamos ansiosos para liderar as pessoas para uma nova justiça e para uma ordem social melhor. Ansiamos por salvar as nações de uma condenação ameaçadora. Mas a nossa palavra, se for a palavra de Deus, tem mais efeito do que aquela que Isaías viu em suas visões e experimentou em sua vida? Somos mais do que ele foi? É o nosso povo hoje menos devoto aos demônios do que o povo dele foi? Se não, podemos esperar algo mais do que lhe foi dito para esperar em sua visão? Devemos clamar pelo espírito profético que está morto há tempo nas igrejas. E aquele que sente que lhe foi dada a missão profética, deve cumpri-la, como Isaías fez. Deve pregar a mensagem de uma nova justiça e uma nova ordem social em nome de Deus e em Sua honra. Mas deve esperar a oposição e perseguição não apenas de seus inimigos, mas também de seus amigos, de seu partido, classe e nação. Deve esperar a perseguição no sentido de que sua palavra é a palavra de que somente Deus é santo, que somente Deus é capaz de criar um povo santo, saído do remanescente de cada nação.

abr 27

Capítulo 09: A Natureza também lamenta um bem perdido

Capítulo 09: A Natureza também lamenta um bem perdido

 

Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz. A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo. Neles pôs uma tenda para o sol, O qual é como um noivo que sai do seu tálamo, e se alegra como um herói, a correr o seu caminho.

Salmos 19:2-5

 

Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus. Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, Na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora.

Romanos 8:19-22

 

E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. E mostrou-me o rio puro da água da vida, claro como cristal, que procedia do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da sua praça, e de um e de outro lado do rio, estava a árvore da vida, que produz doze frutos, dando seu fruto de mês em mês; e as folhas da árvore são para a  saúde das nações 

Apocalipse 21:1; 22:1-2

Todo ano, quando se aproximam a Sexta Feira Santa e o Domingo de Páscoa, nossos pensamentos se voltam para o grande drama da redenção, culminando nas imagens da Cruz e da Ressurreição. Quem é redimido? Alguns homens somente; ou a humanidade, incluindo todas as nações; ou o mundo, toda a criação, incluindo a natureza, as estrelas e as nuvens, os ventos e os oceanos, as pedras e as plantas, os animais e nossos próprios corpos? A Bíblia fala e fala acerca da salvação do mundo, assim como fala da criação do mundo e da sujeição do mundo às forças anti-divinas. E mundo significa tanto a natureza como o homem.

Então nos perguntamos hoje: o que a natureza significa para nós? O que significa para si mesma? Qual seu significado no grande drama da criação e salvação? Uma resposta tripla é encontrada nas palavras do salmista, do apóstolo e do profeta: o salmista canta a glória da natureza; o apóstolo mostra a tragédia da natureza; e o profeta anuncia a salvação da natureza. O hino do salmista louva a glória de Deus na glória da natureza; a carta do apóstolo liga a tragédia da natureza à tragédia do homem; e a visão do profeta enxerga a salvação da natureza na salvação do mundo.

Vamos ouvir mais uma vez as palavras do salmista, sobre a glória da natureza, em seu significado exato:

“Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz. A sua linha se estende por toda a terra, e as suas palavras até ao fim do mundo”.

O Salmo 19 aponta para uma velha crença que existia na Antiguidade, expressada por poetas e filósofos: que os corpos celestes, o sol, a lua e as estrelas, produziam com seus movimentos tons harmônicos, tocando o dia e a noite de uma ponta do mundo à outra. Essas vozes do universo não podiam ser ouvidas por humanos; elas não eram faladas em linguagem humana. Mas elas existem, e podemos percebê-las por meio dos órgãos do nosso espírito. Shakespeare diz: “Essa não é a menor órbita que vês, mas seu movimento é como um anjo que canta. Tal harmonia está em almas imortais; mas enquanto esse manto imundo de decadência a aprisiona, não podemos ouvir.” O salmista ouviu; ele sabe o que as estrelas estão cantando: a glória da criação e seu Fundamento Divino.

Somos capazes de perceber a voz oculta da natureza? A natureza fala conosco? Ela fala com você? Ou a natureza calou-se para nós, calou-se para os homens da nossa era? Alguns de vocês podem dizer, “nunca antes em qualquer era a natureza esteve tão aberta ao homem como hoje. Os mistérios do passado tornaram-se conhecimentos infantis. Através de cada livro científico, através de cada laboratório, de cada máquina, a natureza fala conosco. O uso técnico da natureza é a revelação de seu mistério.” A voz da natureza tem sido ouvida pela ideia científica, e sua resposta é a conquista da natureza. Mas isso é tudo o que a natureza nos diz?

Eu sentei sob uma árvore com um grande biólogo. De repente, ele disse, “eu gostaria de saber algo sobre essa árvore!” Ele, é claro, sabia tudo o que a ciência tinha a dizer sobre a árvore. Perguntei o que ele queria dizer. Respondeu: “quero saber o que essa árvore significa pra si mesma. Quero entender a vida dessa árvores. Ela é tão estranha, tão inacessível”. Ele ansiava por uma compreensão solidária da vida da natureza. Porém, tal compreensão só é possível por meio da comunhão entre homem e natureza. Tal comunhão é possível no nosso período histórico? A natureza não está completamente sujeita à vontade e à obstinação do homem? Essa civilização tecnológica, o orgulho da humanidade, trouxe uma tremenda devastação da natureza original, da terra, dos animais, das plantas. Ela mantém a natureza genuína em pequenas reservas e ocupou todo o mais para dominar e explorar impiedosamente. E pior: muitos de nós perdemos a habilidade de conviver com a natureza. Nós a preenchemos com um falatório vazio, ao invés de ouvir suas muitas vozes, e através delas, a música sem voz do universo. Separados da terra por uma máquina, corremos através da natureza, capturando vislumbres dela, sem nunca compreender sua grandeza ou sentir seu poder. Quem ainda é capaz de penetrar, meditar e contemplar, o fundamento criativo da natureza? Um imperador chinês pediu a um famoso pintor que lhe fizesse uma pintura de um galo. O pintor assentiu, mas disse que levaria um longo tempo. Depois de um ano, o imperador lhe lembrou de sua promessa. O pintor respondeu que depois de um ano estudando o galo, ele havia começado a perceber a superfície de sua natureza. Depois de outro ano, o artista falou que havia começado a penetrar a essência desse tipo de vida. E assim, ano após ano. Finalmente, depois de dez anos de concentração na natureza do galo, ele fez a pintura – um trabalho descrito como uma revelação inesgotável do fundamento divino de uma pequena parte universo, um galo. Compare a sábia paciência do imperador e a santa contemplação do pintor de uma expressão infinitamente pequena da vida divina, com as exuberâncias de nossos contemporâneos, que voam em seus carros até alguma paisagem famosa e exclamam, “que adorável!”, referindo-se, é claro, não à paisagem, mas à sua própria apreciação da beleza. Que blasfêmia da glória da natureza! E conseqüentemente do fundamento divino, a glória que soa através da glória da natureza.

Louvar a glória da natureza não significa falar somente da beleza desta e esquecer sua esmagadora grandeza e terrível poder. A natureza nunca manifesta uma beleza rasa ou uma harmonia obviamente simples. “A voz do Senhor é poderosa”, canta o poeta do Salmo 29. “A voz do Senhor quebra os cedros, a voz do Senhor separa as labaredas do fogo, a voz do Senhor faz tremer o deserto e faz parir as cervas”. No livro de Jó, encontramos uma descrição do terrível poder da natureza na simbologia mitológica do Beemote e do Leviatã. Um grande poeta recente, Rilke, diz: “Pelo nada da Beleza, mas o início do Terror é que ainda somos capazes de suportar, por isso a adoramos, pois ela serenamente desdenha de nos destruir. Cada simples anjo é terrível. A glória da natureza não é uma beleza rasa”.

Agora, vamos ouvir mais uma vez as palavras do apóstolo sobre a tragédia da natureza em seu significado preciso. “Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus. Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, Na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora.”

A natureza não é apenas gloriosa, também é trágica. Está sujeita às leis da finitude e destruição. Está sofrendo e suspirando conosco. Ninguém que tenha escutado aos sons da natureza com simpatia pode esquecer suas melodias trágicas. A palavra grega utilizada na epístola de Paulo que temos traduzida como “criação” é usada especialmente para a parte inanimada da natureza, com Paulo fazendo alusão às palavras de Deus para Adão depois da Queda: “Maldita é a terra por causa de ti”. Os suspiros dos ventos, e a quebra fútil e inquietante das ondas podem ter inspirado os versos poéticos e melancólicos sobre a sujeição da natureza à vaidade. Mas as palavras de Paulo também se referem, de maneira mais direta, à esfera das coisas vivas. A melancolia das folhas caindo no outono, o fim da vida jubilante da primavera e do verão, a morte silenciosa de inúmeros seres no ar frio do inverno que se aproxima – tudo isso apertou e apertará os corações, não somente dos poetas, mas de todos os homens e mulheres que sentem. A canção dos sons da transitoriedade entre as nações. As palavras de Isaías: “Seca-se a erva, e cai a flor, soprando nela o Espírito do Senhor”, descrevem a brevidade das vidas de indivíduos e nações. Mas elas não poderiam ter sido escritas sem uma profunda simpatia pela vida da natureza. E então diz Jesus: “nem mesmo Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles”. Nessas duas falas sobre flores do campo percebemos tanto a glória quanto a tragédia da natureza.

Compaixão pela natureza em sua tragédia não é uma emoção sentimental; é um sentimento verdadeiro sobre a realidade da natureza. Schelling diz corretamente: “um véu de tristeza se espalha sobre toda a natureza, uma melancolia profunda e implacável sobre toda a vida”. De acordo com ele, isso é “manifesto por meio dos traços de sofrimento no rosto de toda a natureza, especialmente no rosto dos animais”. A doutrina do sofrimento como caráter de toda a vida, ensinada pelo Buda, conquistou grandes partes da humanidade. Mas somente aquele que tem o fundamento de seu próprio ser conectado com o fundamento da natureza é capaz de enxergá-la em sua tragédia; como diz Schelling, “o mais escuro e profundo fundamento da natureza humana é ‘anseio’ . . . é melancolia”. Isto, principalmente, cria a compaixão do homem com a natureza. Pois para a natureza, o fundamento mais profundo também é a melancolia. A natureza também lamenta um bem perdido. Conseguimos ainda compreender o significado de tais palavras, meio poéticas, meio filosóficas?  Ou nos isolamos tanto na superioridade humana, na arrogância intelectual, em uma atitude autoritária perante a natureza? Nos tornamos incapazes de perceber os sons harmoniosos da natureza. Nos tornamos também insensíveis aos sons trágicos?

Por que a natureza é trágica? Quem é o responsável pelo sofrimento dos animais, pelo horror da morte e da decadência, pelo pavor universal da morte? Muitos anos atrás eu estava em um cais com um psicólogo muito conhecido, olhando para o oceano. Vimos inúmeros pequenos peixes correndo para a praia. Eles eram perseguidos por peixes grandes, que por sua vez, eram caçados por peixes maiores ainda. Agressão, luta, e ansiedade, em uma perfeita ilustração da velha, porém bastante usada história do peixe grande devorando o pequeno, tanto na natureza como na história. O sábio psicólogo, que em várias discussões, defendeu a estrutura harmoniosa da realidade, rompeu em lágrimas, dizendo, “por que esses seres foram criados, se eles existem somente para serem comidos pelos outros?”. Nesse momento, a tragédia da natureza foi forçada sob seu otimismo, e ele perguntou “por que?”

Paulo tenta penetrar no mistério dessa questão. E sua surpreendente resposta é: a natureza é sujeita à vaidade pela maldição que Deus proferiu quando da queda de Adão. A tragédia da natureza é vinculada à tragédia do homem, assim como a salvação da natureza depende da salvação do homem. O que isso significa? A humanidade sempre sonhou com um tempo que a harmonia e a alegria preenchessem toda a natureza, e que a paz reinasse entre a natureza e o homem. Paraíso, a Era de Ouro. Mas o homem, ao violar a lei divina, destruiu a harmonia, e agora existe uma inimizade entre o homem e a natureza, entre a natureza e a natureza. Nas palavras melancólicas de Paulo ressoa esse sonho. É um sonho, mas contém uma verdade profunda: o homem e a natureza caminham juntos na glória da criação, em sua tragédia e em sua salvação. Assim como a natureza, representada pela “Serpente”, leva o homem à tentação, também o homem, ao desobedecer a lei divina, leva a natureza à sua tragédia. Isso não aconteceu uma vez, como diz a história; isso acontece em todo o tempo e espaço, enquanto houverem tempo e espaço. Enquanto existirem o velho céu e a velha terra, homem e natureza estão sujeitos juntos à lei da vaidade. Muitos pensadores, cristãos ou não, concordam que o homem está determinado a cumprir o anseio da natureza, seu próprio corpo e ser, assim como a natureza ao seu redor. Portanto, Jesus é chamado de O Filho do Homem, o homem do alto, o verdadeiro homem, em quem as forças da separação e da tragédia são superadas, não somente na humanidade, mas também no universo. Pois não há salvação do homem se não houver salvação da natureza, pois o homem está na natureza e a natureza no homem.

Vamos ver mais uma vez as palavras do profeta sobre a salvação da natureza. “E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. E mostrou-me o rio puro da água da vida, claro como cristal, que procedia do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da sua praça, e de um e de outro lado do rio, estava a árvore da vida, que produz doze frutos, dando seu fruto de mês em mês; e as folhas da árvore são para a  saúde das nações”.

Com imagens poderosas o último livro da Bíblia descreve a salvação do homem e da natureza da escravidão da corrupção: a cidade de Deus é construída com os materiais mais preciosos da natureza inanimada. O oceano, símbolo do caos disforme, é excluído. O rio não está poluído por qualquer podridão. As árvores têm frutos sem mudanças ou deterioração; os animais, juntamente com os santos, adoram ao trono da glória. As forças demônicas são jogadas no nada. Não há sofrimento ou morte. Desnecessário dizer que essa não é uma descrição de um estado futuro do nosso mundo. Como a Era de Ouro do passado, a Era de Ouro do futuro é um símbolo, apontando para algo misterioso do nosso presente, isto é, as forças da salvação. E uma coisa fica bem clara nas visões do profeta, que a salvação significa salvação do mundo, e não dos seres humanos somente. Leões e ovelhas, crianças pequenas e cobras, irão viver em paz, diz Isaías. Anjos e estrelas, homens e animais, adoram a Criança da lenda do Natal. A terra treme quando o Cristo morre, e treme novamente quando Ele é ressuscitado. O sol perde seu brilho quando Ele fecha Seus olhos, e levanta quando Ele sai de sua tumba. A ressurreição do corpo e não de uma alma imortal é o símbolo da vitória sobre a morte. O espírito incorpóreo (e esse é o significado de todas essas imagens) não é o objetivo da criação; o propósito da salvação não é o intelecto abstrato ou uma personalidade moral sem natureza. Não vemos por toda parte a alienação das pessoas em relação à natureza, de suas próprias forças naturais e da natureza ao redor delas? E elas não se tornam secas e sem criatividade em sua vida mental, duras e arrogantes em suas atitudes morais, reprimidas e envenenadas em sua vitalidade? Elas certamente não são imagens da salvação. Como um teólogo corretamente falou, “o ser corporal é o final dos caminhos de Deus”.

Pintores e escultores criativos sempre souberam disso. Uma grande pintura ou estátua é uma antecipação da nova terra, uma revelação do mistério da natureza. Uma pintura ou estátua é uma planta ou uma pedra transformadas em um portador de significado espiritual. É a natureza elevada sobre si mesma, revelando sua tragédia e, ao mesmo tempo, sua vitória sobre esta. As pinturas de Jesus e dos apóstolos e santos através dos séculos da arte cristã, em retratos de cores e pedras de homens nos quais a humanidade descobriu seu poder e dignidade, a expressão incomparável de personalidade no rosto do até mesmo mais simples indivíduo, mostra que o espírito torna-se corpo, e que a natureza não é estranha à personalidade. O sistema de células e funções o qual chamamos de “corpo”, é capaz de expressar as menores mudanças do nosso ser espiritual. Os artistas têm frequentemente compreendido o significado eterno da natureza, mesmo quando teólogos enfatizam uma espiritualidade incorpórea, esquecendo que a primeira ação pela qual Jesus revelou Sua vocação Messiânica, foi pelo Seu poder de curar doenças físicas e mentais.

Deixe-me fazer uma pergunta: ainda conseguimos entender o que significa um sacramento? Quanto mais nos alienamos da natureza, menos podemos responder de maneira afirmativa. Eis o porque, atualmente, os sacramentos têm perdido tanto de seu significado para indivíduos e igrejas. Pois nos sacramentos a natureza participa do processo de salvação. Pão e vinho, água e luz, e todos os grandes elementos da natureza tornam-se portadores de significado espiritual e poder salvífico. Poderes naturais e espirituais estão unidos, reunidos no sacramentos. O mundo apela para o nosso intelecto e pode mexer em nossa vontade. O sacramento, se seu significado estiver vivo, alcança tanto nosso inconsciente como nossa consciência. Ele alcança o fundamento criativo do nosso ser. O sacramento é o símbolo da natureza e do espírito, unidos em salvação.

Portanto, comungue com a natureza! Reconcilie-se com a natureza, pois nos separamos dela. Ouça à natureza em silêncio, e você encontrará o coração dela. Soará a glória de seu fundamento divino. Ela lamentará conosco a escravidão da tragédia. Ela falará da esperança indestrutível da salvação!

abr 17

Charles Chaplin

 Ontem, dia 16/04, foi aniversário do ator, diretor, roteirista, músico, produtor, empresário, dançarino e humorista britânico, Charles Spencer Chaplin. Muito além de seus filmes, Chaplin foi um homem que foi um homem que marcou sua época, assim como a história mundial, por conta da sua genialidade.

 No ano passado, fiz um trabalho sobre o filme O Grande Ditador, para as aulas de História da América, onde pude me aproximar desse gênio, conhecendo um pouco mais sobre sua vida, e podendo compreender o porque de tanto reconhecimento. Nesse filme, de 1940, Chaplin tem a coragem de satirizar e ridicularizar um personagem o qual o mundo tinha medo: Adolf Hitler, demonstrando as fraquezas psicológicas dos ditadores, assim como o ridículo dos regimes fascistas.

 Tendo nascido com apenas 6 dias de diferença do ditador da Alemanha, Chaplin considerava-se sua nêmesis, e realmente o foi. Olhando de fora, da atualidade, parece fácil, mas Chaplin teve uma visão extraordinária da situação estando mergulhado nela. Ele mostrou-se dotado de uma sensibilidade ímpar, ao denunciar a desumanização do homem pela guerra, pela falta de liberdade, pelo avanço tecnológico, como mostram trechos do discurso final do filme:

A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura.

[...]

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! 

[...]

Lutemos por um mundo novo… um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência.”

 

 Essas palavras não foram tomadas somente como uma crítica ao fascismo germano-italiano. Aqueles que vestiram a carapuça também sentiram-se ofendidos, e mesmo a “maior democracia” da época o perseguiu. Acusando-o de comunista, J. Edgar Hoover, o chefão do FBI perseguiu o ator em nome da “liberdade americana”. Seu discurso feria a todos que cerceavam a liberdade.

 Chaplin foi um homem que demonstrou a essência de seu tempo. Viveu ao máximo o romance, o horror, as alegrias e a angústia de sua época. Foi um homem falho, assombrado, atormentado, perseguido. Mas mesmo assim, sempre teve o incrível dom de demonstrar jogar em nós mesmos um pouco da nossa humanidade, com tudo o que esta tem de bom e ruim.

 Feliz aniversário sir Charles Spencer Chaplin!

abr 13

Leonardo Boff no Roda Viva

Essa semana, tive o prazer de encontrar a entrevista de Leonardo Boff no programa Roda Viva, da Cultura. A entrevista ocorreu no dia 06/01/1997, e coloco abaixo alguns trechos dela.

Na entrevista são discutidos temas como hierarquia da Igreja, funções da Igreja, o processo inquisitório que Boff sofreu, pecado, Teologia da Libertação, casamento homoafetivo, a relação de Boff com o então cardeal e atual Papa Joseph Ratzinger, entre outros.

Quem tiver interessem em ler a mesma na íntegra, basta clicar aqui.

[Comentarista, Valéria Grillo]: Leonardo Boff é franciscano no sentido estrito da palavra. Ele se define como ‘herdeiro do espírito de São Francisco’, o que ajuda a entender, um pouco melhor, a vida e a produção deste intelectual, que tornou-se um dos teólogos mais vigiados pela Igreja Católica, no Brasil, neste fim de século. Ele foi perseguido, punido e censurado por suas idéias. Em 1992, terminava um capítulo importante da caminhada do frei, a inquisição dos tempos modernos, aparentemente, marcava um ponto. Depois de uma sucessão de censuras e castigos, Leonardo Boff se divorciava da Igreja. Ele saiu dizendo que não estava mudando de batalha e sim de trincheira. A batalha dele ganhou força, no final dos anos 60, com o surgimento da Teologia da Libertação, durante a conferência geral do episcopado latino-americano, na Colômbia. A teologia, altamente questionadora das realidades sociais, lançou uma luz sobre a leitura do evangelho. As mensagens contidas no evangelho seriam adaptadas aos contextos sociais e não seriam impostas. Leonardo Boff desafiou a Igreja. Embora soubesse que associar o discurso da fé com o da pobreza e da injustiça traria riscos políticos e eclesiásticos, ele se dizia convicto de que Deus tomou o partido dos pobres. Em Igreja, carisma e poder, um dos mais de 50 livros escritos pelo frei, ele condenou as violações aos direitos humanos dentro da Igreja e propôs um modelo eclesial baseado na comunhão e na participação. Esta tese foi considerada perigosa pelo Vaticano. O ano era 1985, e o castigo veio rápido, o silêncio obsequioso. Os onze meses que se seguiram foram férteis. Nesse período ele escreveu três livros. Mas, à medida que suas idéias eram conhecidas e sua obra traduzida em vários idiomas, os setores conservadores da Igreja e da sociedade se uniam para desarticular as teorias libertadoras de Leonardo Boff. As comunidades eclesiais de base começavam a ser combatidas. No vácuo delas, na interpretação do teólogo, se multiplicavam as Igrejas pentecostais. Até que, em 92, o frei catarinense foi vítima da última perseguição do seu principal censor, o cardeal Ratzinger, prefeito da sagrada congregação para a doutrina da fé. Leonardo Boff foi proibido de lecionar, dar entrevistas ou publicar artigos sem autorização. Em junho do mesmo ano, ele pediu o desligamento da Igreja de Roma, mas na prática reafirmava os votos franciscanos de defesa da natureza e de respeito aos seres vivos. Hoje, casado com a teóloga e colaboradora Márcia Miranda, Leonardo Franciscano Boff continua a ensinar e a praticar a Teologia da Libertação.

Matinas Suzuki: Bem, para entrevistar o professor Leonardo Boff, nós convidamos esta noite o Fernando Mitre, diretor de jornalismo da Rede Bandeirantes de Televisão. Dom Amaury Castanho, bispo da diocese de Jundiaí. Marcelo Cavalari, que é jornalista da Folha de S. Paulo. O frei Vitório Mazzuco, editor chefe da Editora Vozes. O jornalista e escritor Fernando Morais. O Mário Simas, que é jornalista da revista Istoé. O Rinaldo Gama,  editor do Caderno de Literatura Brasileira do Instituto Cultural Moreira Salles. Mateus Soares de Azevedo, que é jornalista e escritor.

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Leonardo Boff: Olhe, eu acho muito arriscado o cristianismo só hierárquico. Porque o sonho de Jesus tem muitas expressões. Eu vejo que o leque das confissões cristãs, desde a Igreja ortodoxa, todas as Igrejas da Reforma [Protestante], e mesmo as pentecostais hoje, são expressões de tentativas de redizer este sonho, essa promessa que é a mensagem de Jesus, a sua vida, este mistério, finalmente. Agora, a expressão dominante dentro do lado romano-católico, é a expressão hierárquica, clerical, formada pelos bispos, o clero e, ao lado da dimensão dos leigos.

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Leonardo Boff: Eu acho que a tendência atual não é hierárquico. Embora a hierarquia tenha muito poder e mova uma guerra, em termos de sistematizar todo mundo no seu quadro, eu penso que este Papa colocou seu pontificado nesta volta à grande disciplina. Eu creio que é um projeto fracassado.

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Rinaldo Gama: Por isso que você quer um mandato limitado para o Papa?

Leonardo Boff: É mais por misericórdia e humanidade ao portador deste poder…

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Leonardo Boff: Eu acho que a fé tem uma dimensão familiar, tem uma dimensão mística, tem uma dimensão artística, cultural e tem uma dimensão política, é inegável, porque ela está na sociedade civil, está no Estado. O que fez a Teologia da Libertação? Foi dar uma ênfase, que é inerente a essa fé, libertadora à sua dimensão política. Porque normalmente a dimensão política da fé era cooptada pelas forças dominantes. No velho pacto colonial Igreja-Estado, classes dominantes, Igrejas institucionalizadas que compunham a ordem. Então, revolucionar não é fazer política, não é fazer política de esquerda, fazer a política com os pobres. Por isso se diz: “Essa é a política”. Não. A Igreja sempre fez política. Só que era uma política de centro, de direita. Era um dos fatores, eu diria até de uma forma simbólica, ela era azeite na maquinaria social da ordem estabelecida, que, quando analisada, era uma desordem.

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Leonardo Boff:  Olhe, eu não deixei a Igreja, deixei uma função da Igreja hierárquica. Agora a Igreja não é só hierarquia, como o Brasil não é só o exército. Não são só generais. A Igreja não é um exército, é um povo de Deus, é povo…

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Leonardo Boff: Então, eu não deixei a Igreja como comunidade, eu deixei uma função da Igreja, aquela função hierárquica do padre que é um conceito canônico, que celebra na Igreja paroquial e aquela coisa toda. Mas eu não deixei de ser fiel, não deixei de ser teólogo, e lá nas comunidades que me pedem para eu coordenar a celebração, é a comunidade que celebra, eu coordeno esta celebração, participo dela. E isso eu continuo fazendo, seja atendendo uma demanda, seja também como uma missão, uma vocação, aquilo que eu gosto de fazer.

D. Amaury Castanho: Por favor, professor Leonardo, está na linha das colocações que ele acaba de fazer, o senhor enfatizou, valorizou uma Igreja “comunhão”. Mas o senhor rompeu essa comunhão com a Igreja. Porque a Igreja não é só a hierarquia, mas não é só o povo de Deus. A Igreja é hierarquia e povo de Deus.

Leonardo Boff: É só discurso, dom Amaury.

D. Amaury Castanho: Então fica um pouco difícil de entender em sua vida, e certamente São Francisco de Assis não entenderia também, porque ele sempre viveu em profunda comunhão com o Papa. Ele foi a pé de Assis, na Umbria, até Roma para pedir a benção do Papa para a sua nova ordem, para os estatutos, a regra da ordem, ele foi muito respeitoso da hierarquia… Então eu não estou compreendendo bem algumas contradições aí…

Leonardo Boff: Talvez, D. Amaury, o senhor, que é um padre secular não entenda a tradição dos mendicantes. Tem um artigo muito interessante do cardeal Ratzinger, está em português, eu aconselharia o senhor ler. Lhe faria muito bem porque é um livro que tem o título Igreja povo de Deus, saiu pelas Paulinas. Lá ele mostra como São Francisco foi o maior profeta contraditório da Igreja-instituição daquele tempo. A gente disse: “Não! Não à Igreja dos monarcas, não à Igreja do Papa- príncipe, como era no século III”. Era a Igreja da rua, Igreja dos caminhos, Igreja da pobreza. Não assumiu aquele projeto de Igreja, reinventou um projeto de uma Igreja de base, popular, onde celebrava no meio do povo, dos pobres… Se é uma ruptura, São Francisco a fez.

D. Amaury Castanho: Mas ele fez a ruptura não rompendo a comunhão da Igreja e continuou na Igreja transformando-a por dentro…

Leonardo Boff: Eu não rompi a comunhão… Quer dizer, o senhor define a Igreja como um exército e a Igreja não é isso.

Leonardo Boff:  eu não rompi com a comunhão. Comunhão é uma coisa sociológica, que a gente mede e é uma coisa mais profunda…

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Leonardo Boff: Veja, Mário. Talvez seja bom esclarecer o que é a Igreja. Normalmente, pela mídia, Igreja é os bispos e os padres, o Papa e pronto. Agora, um conceito mais complexo de Igreja, a Igreja é a comunidade dos que crêem, que se organizam, lá eles têm a sua hierarquia, mas é povo, são os teólogos, é a vida religiosa, é o movimento dos sem-terra, pastoral do índios, dos negros, das crianças de rua, é a Teologia da Libertação, toda essa complexidade de vida, forma a Igreja concreta. Então, qual foi a minha crise e o meu conflito? Foi na discussão da Igreja, carisma e poder, eu não digo que a Igreja é só carisma ou é só poder; a Igreja é carisma e é poder. Mas, na forma como ela se organizou, o poder engoliu o carisma. De tal forma que a grande parte dos cristãos está à margem disso. Os negros, as mulheres, as religiosas, e há a densificação nesse lado mais piramidal da Igreja. Então, a minha luta é dizer que é possível a Igreja ser diferente, mais comunhonal, mais participativa; não como discurso teórico da teologia, mas como experiência prática, nas comunidades de bases, ao nível continental, na África, na Ásia, o cristianismo de comunidade…

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Leonardo Boff: Eu não fui aluno, eu fui amigo; ele [o então cardeal Ratzinger] publicou a minha tese, que era uma tese muito complicada, muito grossa. Nós trocávamos os artigos, tudo o que ele escrevia, mandava a mim e eu mandava a ele. Ele, uma vez que eu estava na linha de cumprimento do Papa, me viu na fila e me chamou à parte, me apresentou ao Papa, dizendo até com um certo humor: “Um jovem teólogo latino americano, um pouco selvagem”. E eu logo disse, em alemão, porque ele estava falando em alemão: “Eu venho do Urval, venho da Floresta Amazônica, sou um selvagem por causa disso”.

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D. Amaury Castanho: Os seus livros são traduzidos em várias línguas e corre a Europa, então, independente da comissão do Rio, certamente chegariam ao conhecimento de suas idéias. Todo livro que o senhor escreve, há páginas geniais, mas não há um livro que o senhor escreva em que não há heresias.

Leonardo Boff: Uma glória isso, o Brasil produz hereges…

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Leonardo Boff:  “Gente, Jesus está perdido, porque ler o evangelho põe em risco a fé cristã”.

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Leonardo Boff: Olha, eu vejo. Eu vejo que o cristianismo oficial, seja de vertente presbiteriana, metodista, romano-católica, ele se fossiliza lentamente. Ela não renova o discurso, não renova os ritos. Eu não encontro a linguagem para os destituídos; encontro para os pobres, mas não para os excluídos, para as massas abandonadas. Não tem a linguagem do corpo, uma nova simbologia, que fala sobre subjetividade…

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Leonardo Boff: Não. Uma coisa é a Igreja, e todo o discurso que se faz montado e bem estratégico, outra é a comunidade que freqüenta, aquele povo que vai lá carregado de fé, de mística. O que eu tenho é um grande respeito e eles [pentecostais], nos dão duras lições que nós, católicos, devemos aprender. Que é redescobrir o caminho da subjetividade, do profundo do ser humano… Então, pouco importa, eu gostaria de alargar esse debate, que é a minha posição atual, tanto faz se é Edir Macedo, se é o Papa, são outros… Quem está alimentando hoje o fogo interior? Quem permite ao ser humano fazer uma viagem de uma águia e não ficar como uma galinha ciscando no chão? Digo quem por muitas fontes está sendo o conduto para permitir ao ser humano descobrir sua transcendência. Quem não está condenado a produzir e a consumir, como a ideologia do mercado diz, mas que ele é mais do que tudo isso.

Fernando Morais: O senhor acha que a Igreja pentecostal está sendo mais do que …

Leonardo Boff: Eu acho que ela faz. Eu acho que é uma das criadoras de sentido para aqueles que são excluídos. Não existe para o governo porque eles são os zeros econômicos; não existe para os padres porque eles moram nas favelas e não contam para nada, mas eles têm um nome. No momento em que eles se encontram, realizam o sentido, resgatam a humanidade mínima, que é negado socialmente. E diz: “Eu falo diretamente com Deus”. Não é com o prefeito, nem com o governador, nem com o presidente. “Deus”, eu falo. E Deus me sente como filho, aqui somos como irmãos. Miseráveis, punidos pela sociedade. Mas é um resgate de auto-estima, de humanidade, que ninguém funda na sociedade. Então, se por um lado fazemos a crítica a essa religião pentecostal que manipula as consciências, por outro lado, devemos perceber a sua grande função antropológica de salvar aqueles que não têm nome, que são destituídos, considerados mão-de-obra, nem mais ingressando no mercado no exército de reserva, mas os descartáveis da sociedade. Mas eles não são, são pessoas humanas. E politicamente são importantes porque eles decidem eleições, decidem que um Collor ganhe e não um Lula.  Porque eles votam. Então, a religião encontrou um conduto de falar a eles. Para mim é um desafio para as Igrejas históricas redescobrir uma linguagem de chegar a eles…

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Matinas Suzuki: Qual é a opinião do senhor sobre casamento de pessoas das mesmo sexo?

Leonardo Boff: Eu acho que primeiro tem que ser discutido o fenômeno que ocorre entre duas pessoas do mesmo sexo, ou mesmo nos heterossexuais, que é a experiência do amor humano. Em toda essa discussão ninguém fala do amor. Todo mundo fala do homossexualismo -  abominável, não é abominável, acolhemos ou não acolhemos – ninguém fala da experiência do amor, que é a coisa mais misteriosa do ser humano, à qual devemos ter o máximo respeito, e acolher as pessoas, e que essas pessoas queiram ter continuidade nessa experiência. Que ela pode ser defendida, para que eles tenham uma infra-estrutura de legalidade, sobre os eventuais bens, e aquilo que eles constroem juntos, eu acho que é do direito deles. Então eu não quero julgar sobre o juízo, fazer um juízo moral sobre os homossexuais. Apenas quero dizer que são pessoas humanas, que dão testemunho que é possível um amor entre eles e que a sociedade deve se confrontar sobre isso. Quais as formas legais de garantir a produtividade disso…

Matinas Suzuki: E se o senhor fosse convidado a celebrar um casamento deste, o senhor celebraria?

Leonardo Boff: Eu fui convidado várias vezes  e não aceitei. E não aceitei por razões culturais. Eu disse: “Olha, a sociedade não discutiu profundamente isso, eu acho que não é uma questão de alguém do PT em Brasília formular uma lei, que vem de cima a baixo. Não. Eu acho que tem que ser discutido na sociedade, na mídia… Criar uma cultura da alteridade, da reflexão ética sobre isso, e de tal maneira que ela culmine numa lei. Então digo, não há isso. Fazer um casamento, uma celebração seria escandalizar as pessoas, a religião não é feita para isso. Apenas quero dizer a vocês: “Vocês procurem ser fiéis entre vocês, transparentes na vossa relação, porque Deus não está ausente disso. Que essa presença pode ser simbolizada num rito, vocês podem criar isso, mas não sou eu que vou fazer isso”.

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D. Amaury Castanho: Eu acho que é uma busca de sexo [a união de dois homossexuais]. Eu acho que é um direito, que eles podem fazer esta opção. Mas há mais busca de sexo… Para mim o amor é um conceito muito mais elevado…

Leonardo Boff: Não vamos ofender os homossexuais, inclusive aqueles que estão dentro da Igreja, que são até padres, não vamos ofendê-los. Vamos acolher com confiança, com respeito…

D. Amaury Castanho: Não, não é ofender, é só uma… É uma situação real.

Leonardo Boff: “É só busca de sexo”. Não é só busca de sexo, primeiro porque sexo nunca é sexo só. O sexo é o investimento da libido, da totalidade da pessoa humana, é uma visão muito pequena, menor, imaginar que sexo é troca de órgãos. Não é.

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Leonardo Boff: Eu sempre escrevia: “Leonardo Boff, Frater teologus minus et pecato”. “Irmão, Frater, irmão, teólogo menor, então frade menor, teólogo menor, e pecador”. O cardeal [Ratzinger] dizia: “Como pecador?”. Eu digo: “Eu sou pecador, cardeal, o senhor não é? Me admira que o senhor não reconheça isso”. “Mas você escreve?”. Digo: “Lógico que escrevo, mil vezes, sou pecador mesmo”. Então eu acho que há uma dimensão de pecado, sim, que é a obstinação, e não querer crescer, não querer ouvir o outro, não escutar os apelos profundos da sua interioridade. Não ouvir a palavra o suficiente que ecoe mil ecos, que é a palavra do mistério do divino. Eu acho que toda… Para mim, eu diria: “Pecar é o quê”? É não querer crescer. É querer se fossilizar, se assentar em uma posição. E nós somos chamados a nos transformar continuamente, a crescer, a interagir, dia a dia fazendo isso como um processo constante de nossa personalidade. E temos a outra tendência, de sentar-nos, de fechar-nos, celebrar nossos louros… Eu acho que esta atitude para mim é pecado.

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Mateus Soares de Azevedo: Eu gostaria de voltar a essa questão da pobreza, que tinha sido levantada aqui… Quer dizer que Jesus fez uma série de milagres. Ele fez o morto ressuscitar, ele fez o cego ver, ele fez o surdo escutar. Mas, ele nunca fez um pobre deixar de ser pobre, nunca transformou um pobre em um rico. Além disso, ele disse que também pobre sempre haverá. Então, isso não é uma contradição entre o ensinamento original de Jesus e o que o senhor prega, que a Teologia da Libertação prega?

Leonardo Boff: Não. Nós pregamos a velha doutrina da Igreja, que diz: “Nem pobreza, nem riqueza, mas justiça”. Justiça que é participação, dignidade nas pessoas humanas. Por isso, nos Atos dos Apóstolos, quando se diz que os cristãos distribuíam tudo entre eles, e aí se diz pelo louvor da comunidade, “E não havia pobres entre eles”. Porque todo mundo tinha o suficiente. Então o projeto nosso não é riqueza, nem sacralizar a pobreza. É a justiça onde todos possam participar dos bens criados pelo trabalho e pela cultura, pela técnica humana, este é o projeto.

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Leonardo Boff: Eu considero, por exemplo, a política neoliberal como um grande pecado social. Porque ela supõe uma humanidade menor do que a realmente existente, um Brasil menor. E funciona para 80 milhões de brasileiros. E para uma humanidade calculada em 2,5 bilhões, ele funciona. Agora, nós somos 5,6 bilhões e 150 milhões de brasileiros, não são só marginalizados, são excluídos, não contam. Na planificação de saúde, de escola, de moradia, eles não entram, são zeros econômicos. Então esta lógica que é férrea do sistema, que toma até o empresário de boa vontade, ético, mas está coagido por esta lógica. E se ele não faz isso, ele é expelido do mercado, ele vai à falência. Então, eu acho que é essa mecânica que nos leva a questionar: qual é a centralidade que este sistema tem com a vida humana? Com as carências humanas ou com as carências do mercado? Qual é a lógica e a ética desta produção de bens materiais? Eles se destinam a quê? Ao lucro ou atender a vida, não só a vida humana, mas das plantas, das árvores e dos animais. Eu acho que essa questão, ela tem que ser pensada em termos, não só éticos, ou julgar isso, mas em termos políticos, como gestar políticas que geram vida, mas para todo mundo, que preservem este planeta, que está ameaçado. Porque nós criamos a máquina de morte que pode destruir tudo. Então, não podemos mais ser ingênuos. Temos que assumir posições políticas fundamentais se queremos garantir um futuro para o planeta e as condições para o ser humano poder continuar a desenvolver-se.

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Leonardo Boff:  Eu descobri uma coisa fantástica, que no convento eles não sabem. Que há muito mais santidade no mundo. Em jornalistas como vocês, em trabalhadores, em gente humilde lá embaixo, que segue dia a dia o seu trabalho, transparente. Onde há uma presença de Deus que não se fala em nome de Deus. Que são pessoas comprometidas, não porque o evangelho manda, porque são humanitários, então não precisam usar o discurso religioso para fundar uma estatura humana profunda. Então é uma descoberta: que Deus está solto. Ele não está preso às malhas do discurso religioso. [...] Eu acho que, se alguém me diz: “Eu quero ser santo”. E eu digo: “Vá para uma família, case!”. Não vá para o convento. É muito mais difícil ser fiel, crescer junto na diferença homem-mulher, com os filhos – que, no caso, nem meus são – mas conviver com eles, vê-los crescer. Levar avante uma família aberta, em diálogo com outras. Crescer com a sociedade com espírito de… É um grande exercício de virtudes. Eu acho que o cristianismo deveria ser mais secular para ser mais verdadeiro, mais radical, mais seminal.

abr 03

Capítulo 8: Na Transitoriedade da Vida

Capítulo 8: Na Transitoriedade da Vida

SENHOR, tu tens sido o nosso refúgio, de geração em geração. Antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra e o mundo, mesmo de eternidade a eternidade, tu és Deus. Tu reduzes o homem à destruição; e dizes: Tornai-vos, filhos dos homens. Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou, e como a vigília da noite. Tu os levas como uma corrente de água; são como um sono; de manhã são como a erva que cresce. De madrugada floresce e cresce; à tarde corta-se e seca. Pois somos consumidos pela tua ira, e pelo teu furor somos angustiados. Diante de ti puseste as nossas iniqüidades, os nossos pecados ocultos, à luz do teu rosto. Pois todos os nossos dias vão passando na tua indignação; passamos os nossos anos como um conto que se conta. Os dias da nossa vida chegam a setenta anos, e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, o orgulho deles é canseira e enfado, pois cedo se corta e vamos voando. Quem conhece o poder da tua ira? Segundo és tremendo, assim é o teu furor. Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios.

 Volta-te para nós, SENHOR; até quando? Aplaca-te para com os teus servos. Farta-nos de madrugada com a tua benignidade, para que nos regozijemos, e nos alegremos todos os nossos dias. Alegra-nos pelos dias em que nos afligiste, e pelos anos em que vimos o mal. Apareça a tua obra aos teus servos, e a tua glória sobre seus filhos. E seja sobre nós a formosura do SENHOR nosso Deus, e confirma sobre nós a obra das nossas mãos; sim, confirma a obra das nossas mãos.

Salmo 90

Há algo único nesse salmo, uma ascensão e queda de louvor e lamento, de consideração e oração, de melancolia e esperança. Se quisermos compreender seu significado, devemos acompanhá-lo, palavra por palavra, sentindo o que o poeta sentiu, tentando ver o que ele viu, enxergando a nossa própria vida por meio de sua visão, como ela é interpretada através de suas poderosas palavras. Essas palavras vem a nós de um passado longínquo, ainda que falem para o nosso presente e para todo futuro. As gerações seguintes em Israel expressaram seu sentimento para o poder incomparável deste Salmo atribuindo sua autoria a Moisés, e somente a ele, a quem chamavam de o homem de Deus. Vamos nos aproximar com a mesma reverência. Esse salmo, como outras passagens da Bíblia, fala da vida e morte do homem com palavras profundamente pessimistas. Ele faz eco ao que Deus disse a Adão no terceiro capítulo do Gênesis:  “maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida… No suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tornes à terra; porque dela foste tomado; porquanto és pó e em pó te tornarás”[1]. Seria difícil intensificar a melancolia dessas palavras. E seria difícil para um pessimista moderno intensificar a amargura com que Jó desafia seus amigos moralistas, dizendo que “O homem nascido da mulher é de poucos dias… Porque há esperança para a árvore que, se for cortada, ainda se renovará… Porém o homem se deita, e não se levanta”. E ele diz a Deus: “Tu fazes perecer a esperança do homem. Tu para sempre prevaleces contra ele, e ele passa.”[2] E o naturalista moderno não precisaria mudar nada nas palavras de Eclesiastes, o “Pregador”, quando ele nega que haja alguma diferença entre o homem e o animal: “Como um morre um, assim morre o outro… Todos foram feitos do pó, e todos voltarão ao pó”. Ele duvida da doutrina idealista de que “o fôlego do homem vai para cima, e que o fôlego dos animais vai para baixo da terra”. O homem deveria ser feliz em seu trabalho, “porque essa é a sua porção; pois quem o fará voltar para ver o que será depois dele?”[3]

Esse é o estado de espírito da antiguidade humana. Muitos de nós temos medo dele. Um idealismo cristão raso não consegue suportar a escuridão de uma visão dessas. O mais universal dos livros revela a sabedoria antiga do homem sobre a transitoriedade e a miséria. A Bíblia não tenta esconder a verdade sobre a vida do homem com palavras fáceis sobre a imortalidade da alma. Nem o Antigo nem o Novo Testamento o fazem. Eles conhecem a situação humana e a levam a sério. Eles não nos confortam sobre nós mesmos.

É sob essa luz que devemos ler o Salmo 90. Mas o Salmo vai além. Ele começa com um louvor: “SENHOR, tu tens sido o nosso refúgio, de geração em geração”. Para descrever a transitoriedade humana, o poeta glorifica a Eternidade Divina. Antes de olhar para baixo, ele olha para cima. Antes de considerar a miséria humana, ele aponta para a majestade de Deus. Somente porque olhamos para algo infinito, nos damos conta que somos finitos. Somente por sermos capazes de olhar para o eterno, podemos ver o tempo limitado que nos é dado. Somente por podermos nos elevar acima dos animais é que podemos ver que somos iguais a eles. Nossa melancolia acerca da nossa transitoriedade é enraizada no nosso poder de olhar além dela. Os pessimistas modernos não começam seus escritos louvando ao Deus Eterno. Eles pensam que podem se aproximar diretamente do homem e falar sobre sua finitude, miséria e tragédia. Mas eles não obtém sucesso. Esconder geralmente a si mesmo é um critério pelo qual eles medem e condenam a existência humana. Existe algo além do homem. Quando os poetas gregos chamaram os homens de “mortais”, eles tinham em mente os deuses imortais pelos quais eles mediram a mortalidade humana. A medida da transitoriedade do homem é a eternidade de Deus; a medida da miséria e da tragédia humana é a Perfeição Divina. É esse o significado quando o salmista diz que Deus é o nosso refúgio, a única permanência na mudança das eras e das gerações. Por isso ele começa sua poesia de profunda melancolia com o louvor ao Senhor.

A eternidade de Deus é descrita em uma poderosa visão: “Antes que os montes nascessem, ou que tu formasses a terra e o mundo, mesmo de eternidade a eternidade, tu és Deus”. Mesmo as montanhas, as mais imóveis de todas as coisas da terra, nascem e morrem. Mas Deus, que era antes do nascimento delas, será depois da sua morte. De eternidade a eternidade, ou seja, de forma a forma e mundo a mundo, Ele é. Sua medida de tempo não é a nossa medida. “Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou”. Ele tem a Sua medida, que é além da compreensão humana. A eternidade não é a extinção do tempo; é a unidade criativa de todos os tempos e ciclos de tempo, de todo o passado e futuro. Eternidade é vida eterna e não morte eterna. É ao Deus vivo que o salmista olha.

Então o salmista olha abaixo, para o homem, e escreve: “Tu reduzes o homem à destruição; e dizes: Tornai-vos, filhos dos homens”. O destino da morte é o destino que Deus decretou para o homem. Deus nos entregou à lei da natureza, de que o pó deve retornar ao pó. Nenhum ser escapa desse decreto. Nenhum ser pode ganhar a eternidade Divina. Quando o homem tentou se tornar igual a Deus – assim a história do Paraíso nos conta – tentando compreender por si mesmo o conhecimento dos poderes do bem e do mal, ele soube disso. Mas, ao mesmo tempo, seus olhos foram abertos e ele viu sua situação real, que lhe foi escondida no inocente sonho do Paraíso. Ele viu que não era igual a Deus. O presente do conhecimento que ele recebeu incluía o destino do sexo e a fatalidade de trabalhar e morrer. Ele foi despertado e viu o abismo infinito entre si mesmo e Deus.

O tempo entre o nascimento e a morte é curto. A tremenda visão do poeta é expressada em fragmentos, “como a vigília da noite”, ou seja, como uma das três vigílias nas quais a noite é dividida. “Tu os levas como uma corrente de água; são como um sono”. De um sono infinito fomos despertos; em um terço da noite estamos acordados, é a nossa vez, esse tempo e não mais; breve aqueles que nos substituirão irão chegar, e seremos jogados no sono infinito novamente. Mudando da noite para o curso do dia, e da vida da erva nele, o poeta continua: “de manhã são como a erva que cresce. De madrugada floresce e cresce; à tarde corta-se e seca”. O sol, cujos primeiros raios trazem vida à erva, a queima até a morte ao meio-dia, e a murcha totalmente antes do anoitecer. Tão curta é a nossa vida e parece ser tão longa. “Os dias da nossa vida chegam a setenta anos, e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, o orgulho deles é canseira e enfado, pois cedo se corta e vamos voando”. Não são muitos que chegam a essa idade, que parece inimaginável para o adolescente, longínqua para o homem maduro, e é como nada para aqueles que a alcançaram, somente um momento, voando como um pássaro que não podemos capturar ou seguir.

Por que o poeta está tão impressionado com a brevidade da nossa vida? Obviamente, ele sente que isso torna um real cumprimento impossível. Embora muito poucos queiram repetir suas vidas, geralmente ouvimos pessoas dizer: “se eu pudesse recomeçar minha vida, com toda a experiência, eu poderia viver corretamente. Seria mais que esse pedaço, esse fragmento, essa tentativa frustrada que eu chamo de minha vida”. Mas a vida não permite que recomecemos. E mesmo que pudéssemos recomeçar, ou mesmo se a nossa vida estivesse entre as mais perfeitas, felizes e bem sucedidas, ao olhar para trás, não nos sentiríamos como o salmista se sentiu? Não sentiríamos que as coisas mais valiosas nela, as horas boas, criativas e alegres, foram baseadas em um árduo trabalho sem fim, seguido pelo desapontamento? Não sentiríamos que aquilo que pensamos ser importante, não era? E, face a face com a morte, todos os nossos valores não se tornariam incertos? Esse era, certamente, o estado de espírito do antigo poeta que escreveu o salmo.

Existe um perigo em considerações como essas. Elas podem produzir uma satisfação sentimental e superficial da nossa própria melancolia, um relacionamento de luxúria permanente com a nossa tristeza, um anseio pervertido pela tragédia. Não há vestígios de tal sentimento no Salmo 90. O poeta sabia de alguma coisa que os pessimistas atuais não sabem, e ele expressa isso em palavras solenes: “Pois somos consumidos pela tua ira, e pelo teu furor somos angustiados. Diante de ti puseste as nossas iniqüidades, os nossos pecados ocultos, à luz do teu rosto”. Essas palavras apontam para algo que não encontramos na natureza: a culpa do homem e a ira de Deus. Torna-se visível outra ordem das coisas. Sozinha, a lei natural “do pó ao pó” não explica a situação humana. O homem estar atado à esta lei é a reação divina contra a tentativa do homem de se tornar como Deus. Devemos morrer, pois somos pó. Essa é a lei da natureza à qual estamos sujeitos com todos os seres – montanhas, flores e animais. Mas, ao mesmo tempo, temos que morrer pois somos culpados. Essa é a lei moral a qual nós, diferentemente dos outros seres, estamos sujeitos. Ambas as leis são igualmente verdadeiras; ambas são citadas em todas as partes da Bíblia. Se pudéssemos perguntar ao salmista ou a outros escritores bíblicos como eles entendem que essas leis estão unidas, poderiam achar difícil de responder. Eles sentem, assim como nós, que a morte não é somente natural, mas também antinatural. Algo em nós se rebela contra a morte onde quer que ela apareça. Nos rebelamos contra a visão de um corpo, nos rebelamos contra a morte de crianças, jovens, de homens e mulheres fortes. Sentimos até mesmo um elemento trágico no falecimento de pessoas idosas, com sua experiência, sabedoria e sua individualidade insubstituível. Nos revoltamos contra nosso próprio fim, contra seu caráter definitivo, inescapável. Não nos revoltaríamos se a morte fosse simplesmente natural, assim como não nos revoltamos contra a queda de folhas. Aceitamos que elas caiam, embora o façamos melancolicamente. Mas não aceitamos a morte do homem da mesma maneira. Nos rebelamos; e sendo a nossa revolta inútil, nos resignamos. Oscilamos entre a revolta contra a morte e a resignação à morte, demonstrando por ambas as atitudes que a morte não é natural para nós.

A morte é o trabalho da ira Divina: “Pois todos os nossos dias vão passando na tua indignação; passamos os nossos anos como um conto que se conta”. A idéia de ira Divina tornou-se estranha atualmente. Rejeitamos uma religião que parecia fazer de Deus um tirano furioso, um indivíduo com paixões e desejos que cometia atos arbitrários. Não é isso que a ira de Deus significa. Ela é a reação inescapável e inevitável contra toda distorção da lei da vida, e sobre todo o orgulho e a arrogância humana. Essa reação, através da qual o homem é empurrado para os seus limites, não é um ato de punição passional, ou vingança por parte de Deus. Ela é o restabelecimento do equilíbrio entre Deus e o homem, que é perturbado pelos levantes humanos contra Deus.

O profeta expressa sua profunda compreensão da relação entre Deus e o homem ao dizer que Deus coloca nossos segredos mais íntimos à luz de Seu rosto. A ira de Deus não é direcionada contra nossas falhas morais, contra atos específicos de desobediência à ordem Divina. Ela é direcionada contra o segredo da nossa personalidade, contra aquilo que acontece em nós e para nós, visto pelos homens, despercebido por nós mesmo. Isso, nosso segredo, determina nosso destino, mais do que qualquer coisa visível. No âmbito das nossas ações visíveis, podemos não sentir que merecemos a ira de Deus, a miséria e a tragédia. Mas Deus enxerga através das máscaras com as quais escondemos nossos segredos. Eles são manifestos para Deus. Por isso, sentimos todos os dias o fardo de nos encontrarmos debaixo de um poder que nos nega, nos desintegra e nos faz infelizes. Essa é a ira sob a qual passamos nossos dias, não somente aqueles que passamos por falhas em especial, e sofrimentos diferenciados.

Essa é a situação de todos os homens. Mas nem todos sabem disso. “Quem conhece o poder da tua ira? Segundo és tremendo, assim é o teu furor. Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios.” O Salmo 90 quer nos ensinar a verdade sobre nossa condição humana, nossa transitoriedade e nossa culpa. Era isso o que as grandes tragédias antigas faziam. Elas revelavam às pessoas da cidade, reunidas no teatro, o que o homem é; mostravam às pessoas que o maior, o melhor, o mais bonito, o mais poderoso – todos – encontravam-se sob a trágica lei e maldição dos imortais. Elas procuravam revelar a trágica condição do homem, ou seja, sua condição perante o Divino. O homem tornou-se grande e orgulhoso, e tentou tocar a esfera Divina, e foi jogado à destruição e ao desespero. Foi isso que o salmista quis revelar às pessoas justas e injustas de sua nação – o que elas eram; o que o homem é.

Mas o salmista sabia que os homens, mesmo que abalados por um momento, esquecem seu destino. Ele sabia que os homens vivem como se fossem viver para sempre, e como se a ira de Deus não existisse. Portanto, ele nos pede para contarmos nossos dias, para levarmos em consideração o quão breve eles chegarão a um fim. Ele pede a Deus que Ele Próprio possa nos ensinar que iremos morrer.

O salmista não acha que a compreensão da verdade que ele vem dizendo irá levar o homem ao desespero. Pelo contrário, ele crê que justamente essa ideia pode nos dar um coração sábio – um coração que aceita a infinita distância entre Deus e o homem, e que não reivindica uma grandeza e santidade que pertencem a Deus somente.

O coração sábio é o coração que não tenta esconder isso de si mesmo, que não tenta escapar para uma falsa segurança ou um falso cinismo. O coração sábio é aquele coração que pode encarar esse saber corajosamente, com dignidade, humildade e força. Essa sabedoria é implícita em cada palavra do salmo. É a maior sabedoria que o homem, tendo sentido a tragédia da vida, alcançou no mundo antigo.

Depois do pedido pelo coração sábio (e não pela sabedoria!), começa uma nova seção do Salmo, que talvez tenha sido adicionada em um período tardio da religião judaica. Essa seção trata da nação e da situação histórica. “Volta-te para nós, SENHOR; até quando? Aplaca-te para com os teus servos. Farta-nos de madrugada com a tua benignidade, para que nos regozijemos, e nos alegremos todos os nossos dias. Alegra-nos pelos dias em que nos afligiste, e pelos anos em que vimos o mal. Apareça a tua obra aos teus servos, e a tua glória sobre seus filhos. E seja sobre nós a formosura do SENHOR nosso Deus, e confirma sobre nós a obra das nossas mãos; sim, confirma a obra das nossas mãos.” Algo novo aparece nessas palavras: o significado de passado e futuro, a súplica por um futuro melhor, por um futuro de alegria e gozo, pela presença de Deus e pelo sucesso de nosso trabalho. Deus não é somente o Deus da eternidade. Ele também é o Deus do futuro. O ciclo do pó ao pó, do pecado à ira, é rompido. Surge então a visão de uma era de fartura, depois de tempos de miséria. Mas essa visão é apenas para Seus servos – para a nação eleita, e dentro desta, somente para aqueles que são realmente Seus servos. O indivíduo não fica mais sozinho diante de Deus. Ele é incluído entre os outros servos de Deus, em meio ao povo de Deus que não vê o seu retorno ao pó, mas sim a uma vida em um novo tempo, no qual Deus está presente. A esperança substitui a tragédia. Este é o ponto alto da religião no Antigo Testamento.

Mas o espírito da religião vai além disso. Não é o fim. O que significa a esperança histórica para o indivíduo? Ela nos liberta da lei da transitoriedade e da culpa? A História, correndo em direção a um futuro incerto, joga todos de volta ao passado, e não alcançamos a era de satisfação que o poeta retrata. O passo cruel da História passa sobre nossos túmulos, e a própria História não parece alcançar seu cumprimento. Sempre que a História parece chegar perto de se cumprir, é jogada para trás e fica ainda mais longe de seu objetivo que antes. É isso que inescapavelmente experimentamos em nosso tempo. E perguntamos, como todas as gerações perguntaram: a tragédia é mais forte do que a esperança? O passado conquista o futuro? A ira é mais poderosa do que a misericórdia? Somos levados adiante a para trás entre a melancolia e a esperança – da tragédia à esperança, da esperança à tragédia. Nesse contexto podemos estar prontos para receber a mensagem de um novo ser, de um novo tipo de existência que não seja apenas esperança, mas também realidade, na qual a ira Divina e a culpa humana estejam conquistadas. O cristianismo é baseado nessa mensagem: Deus sujeitando a Si mesmo à transitoriedade e à ira, para estar conosco. É cumprida então a esperança que o salmista canta: “Apareça a tua obra aos teus servos, e a tua glória sobre seus filhos”.

Aceitemos ou não essa mensagem, essa é a resposta às questões que o salmista deixa em aberto. Podemos preferir nos agarrar à simples esperança a despeito de todas as desilusões. Podemos preferir retornar à resignação piedosa da parte anterior do salmo. Podemos até mesmo retornar à identificação melancólica da vida do homem com a erva do campo. Podemos escolher qualquer um desses meios para interpretar a nossa vida. Mas se escolhermos qualquer um deles, devemos ter consciência que não podemos achar nestes a resposta para a questão da nossa vida. E devemos nos resignar. Mas se aceitarmos a mensagem da nova realidade em Cristo, devemos compreender que sua mensagem não tem uma resposta fácil, e que ela não garante qualquer segurança espiritual. Devemos saber que essa resposta só é real se a entendermos permanentemente sob a luz da nossa situação humana, na qual a tragédia e a esperança lutam entre si sem vitórias. A vitória está além deles. “Volta-te para nós Senhor!” – essa oração é a oração da humanidade através de todos os tempos, e a oração escondida nas profundezas de cada alma humana.



[1] Trechos de Gênesis 3 (N. do T.).

[2] Trechos de Jó 14 (N. do T.).

[3] Trechos de Eclesiastes 3 (N. do T.).

mar 19

Capítulo 7: A Profundeza da Existência

Capítulo 7: A Profundeza da Existência

Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus.

1 Coríntios 2:10

 

Das profundezas a ti clamo, ó SENHOR.

Salmos 130:1

 

Das palavras da Carta de Paulo aos Coríntios, vamos nos concentrar no versículo: “o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus”. A partir dele, vamos destacar a palavra “profundezas”, o assunto da nossa meditação.

E do Salmo 130, vamos nos concentrar no versículo: “Das profundezas a ti clamo, ó SENHOR”; e vamos destacar a palavra “profundezas”, ainda o assunto da nossa meditação.

As palavras “profundo” e “profundeza”[1] são usadas na nossa vida cotidiana, na poesia e na filosofia, na Bíblia, e em vários outros documentos religiosos, para indicar uma atitude espiritual, embora as palavras sejam retiradas de uma experiência espacial. A maioria dos nossos símbolos religiosos tem esse caráter, nos lembrando da nossa finitude e submissão às coisas visíveis. Somos e permanecemos seres sensoriais mesmo quando lidamos com assuntos espirituais. Por outro lado, há uma grande sabedoria na nossa linguagem. Ela é a personificação de inúmeras experiências do passado. Não é somente por acaso que usamos alguns símbolos visíveis e outros não. Portanto, é geralmente útil encontrarmos as razões das escolhas do consciente coletivo das gerações passadas. Pode tornar-se extremamente significativo para nós, quando vemos o que está implícito no uso de termos como “profundo” e “profundeza”[2], para expressarmos a nossa vida espiritual. Pode até mesmo nos dar forças para lutar por nossa própria profundidade.

Em seu uso espiritual, “profundo” tem dois significados: significa o oposto de “raso”, ou o oposto de “altura”. A verdade é profunda e não rasa; o sofrimento é profundo e não elevado. Tanto a luz da verdade e a escuridão do sofrimento são profundos. Há uma profundidade em Deus, e há uma profundeza da qual o salmista clama a Deus. Por que a verdade é profunda? E por que o sofrimento é profundo? E por que o mesmo símbolo espacial é usado para ambas as experiências? Essas questões irão dirigir a nossa meditação.

Tudo o que é visível tem uma superfície. A superfície é aquele lado das coisas que primeiramente aparecem para nós. Se olharmos para ela, sabemos o que as coisas parecem ser. E, se agimos de acordo com o que as coisas e as pessoas parecem ser, nos desapontamos. Nossas expectativas se frustram. Tentamos então penetrar além das superfícies para tentar aprender o que as coisas realmente são. Por que os homens sempre buscam a verdade? É porque eles se desapontam com as superfícies, e sabem que a verdade que não desaponta habita abaixo das superfícies, nas profundezas? O que parecia verdade um dia é visto como superficial no próximo. Quando encontramos uma pessoa, recebemos uma impressão. Mas geralmente se agirmos em conformidade com essa impressão, nos desapontamos com seu comportamento. Atravessamos um nível mais profundo de seu caráter, e por algum tempo nos decepcionamos menos. Mas logo ela fará algo que contraria as nossas expectativas; e nos damos conta que nosso conhecimento sobre ela ainda é superficial. Novamente cavamos mais fundo em seu verdadeiro ser.

A ciência funciona assim. A ciência questiona as suposições comuns que parecem ser verdades para todos, tanto para o leigo como para o sábio. Aparece então o gênio e questiona as bases dessas suposições; quando elas demonstram não serem verdadeiras, um terremoto ocorre nas profundezas da ciência. Um terremoto desses aconteceu quando Copérnico questionou se nossas impressões sensoriais poderiam ser as bases da astronomia, e quando Einstein perguntou se há um ponto absoluto do qual um observador poderia enxergar o movimento das coisas. Um terremoto ocorreu quando Marx questionou a existência de uma história intelectual e moral independente de sua base econômica e social. Ocorreu de maneira ainda mais forte quando os primeiros filósofos questionaram aquilo que todos tinham como certo desde tempos imemoriais – ser si mesmo. Quando eles tornaram-se conscientes do fato assombroso, subjacente a todos os fatos, de que existe algo e não o nada, uma profundeza inultrapassável de pensamento foi alcançada.

À luz desses grandes e ousados passos para as coisas profundas do nosso mundo, devemos olhar para nós mesmos e para as idéias que temos como certas. E devemos olhar o que nessas coisas podem ser prejudiciais, advindas de nossas preferências individuais e do contexto social. Devemos nos chocar ao notarmos o quão pouco do nosso mundo espiritual está além da superfície, e o quão pouco conseguimos resistir a um duro golpe. Algo terrivelmente trágico acontece em todos os períodos da vida espiritual do homem: verdades, uma vez profundas e poderosas, descobertas pelos maiores gênios através de profundo sofrimento e incrível trabalhos, tornam-se rasas e superficiais quando usadas numa discussão do dia a dia. Como e por que essa tragédia ocorre? Ela é inevitável, pois não pode existir profundidade sem o caminho para a profundidade. A verdade sem o caminho para a verdade é morta; se ela ainda é usada, somente contribui para a superficialidade das coisas. Veja o estudante que conhece o conteúdo de centenas dos mais importantes livros da história mundial, mas sua vida espiritual permanece rasa como sempre, ou talvez torne-se ainda mais superficial. Olhe então para o rude trabalhador que realiza uma tarefa mecânica dia após dia, mas repentinamente pergunta a si mesmo: O que isso significa, esse meu trabalho? O que significa para a minha vida? Qual é o sentido da minha vida? Por conta dessas perguntas, esse homem está no caminho para a profundidade, enquanto o outro homem, o estudante de história, permanece na superfície em meio a corpos petrificados, trazidos à tona por algum terremoto espiritual do passado. O simples trabalhador pode compreender a verdade, mesmo embora ele não possa responder suas questões; o estudante talvez não possua a verdade, mesmo tendo o conhecimento de todas as verdades do passado.

A profundidade do pensamento é uma parte da profundidade da vida. A maioria da nossa vida continua na superfície. Somos escravizados pela rotina da nossa vida diária, de trabalho e prazer, de negócios e recreação. Somos dominados por incontáveis acasos, tanto bons quanto maus. Somos mais guiados do que guiamos. Não paramos para olhar a altura acima de nós, ou a profundidade abaixo de nós. Estamos sempre indo para a frente, embora geralmente em um círculo, que por fim nos traz de volta ao lugar de partida. Estamos em movimento constante e nunca paramos para mergulhar na profundeza. Falamos e falamos e nunca escutamos às vozes falando à nossa profundidade e de dentro da nossa profundidade. Nos aceitamos como parecemos para nós mesmo, e não nos preocupamos com o que realmente somos. Como motoristas que batem e fogem, prejudicamos nossas almas com a velocidade com a qual nos movemos na superfície; e então fugimos, deixando nossas almas feridas sozinhas. Perdemos, portanto, nossa profundidade e nossa verdadeira vida. E somente quando a imagem que temos de nós mesmos cai por completo, somente quando nos flagramos agindo totalmente contra as expectativas que vinham dessa imagem, e somente quando um terremoto abala e rebenta a superfície do nosso auto-conhecimento, é que estamos dispostos a olhar para um nível mais profundo do nosso ser.

A sabedoria de todas as eras e de todos os continentes fala sobre o caminho para a nossa profundidade. Ele é descrito de inúmeras maneiras diferentes. Mas todos os que falam acerca desse caminho com místicos e padres, poetas e filósofos, pessoas simples e pessoas educadas,  nesse caminho através da confissão, auto-análise solitária, catástrofes internas ou externas, oração, meditação, passaram pela mesma experiência. Eles descobriram que não eram o que acreditavam ser, mesmo depois de um nível mais profundo ter aparecido para eles abaixo da superfície desaparecida. Esse nível mais profundo torna-se superfície, quando um nível ainda mais profundo é descoberto, e vai acontecendo de novo e de novo, enquanto viverem, e enquanto mantiverem seu caminho para sua profundeza.

Hoje, uma nova forma desse método se tornou famosa, a chamada “psicologia da profundeza”. Ela nos leva da superfície do nosso auto-conhecimento até níveis onde as coisas são gravadas e que não sabemos nada sobre a superfície da nossa consciência. Isso nos mostra traços do nosso caráter que contradizem tudo o que acreditávamos saber sobre nós mesmos. Pode nos ajudar a encontrar o caminho para a nossa profundeza, embora não possa nos ajudar de uma maneira final, pois não consegue nos guiar ao mais profundo do nosso ser, e de todos os seres, a profundeza da vida em si.

O nome dessa profundidade infinita e inesgotável, e base de todos os seres é Deus. Essa profundidade é o que a palavra Deus significa. E se essa palavra não tem muito significado para você, transforme ela, e fale das profundezas da sua vida, da fonte do seu ser, da sua preocupação última, do que você leva a sério sem reservas. Talvez, para fazer isso, você deva esquecer tudo de tradicional que aprendeu sobre Deus, talvez até mesmo a própria palavra. Pois se você souber que Deus significa profundidade, você sabe muito sobre Ele. Você não pode então se chamar de ateu ou descrente. Pois você não pode pensar ou dizer: a vida não tem profundidade! A vida em si é rasa. Ser você mesmo é apenas superficial. Se você conseguir dizer isso com completa seriedade, você pode ser um ateu; mas de outra maneira, você não é. Aquele que sabe sobre a profundidade sabe sobre Deus.

Temos considerado a profundidade do mundo e das nossas almas. Mas só nos encontramos em um mundo por meio de uma comunidade de homens. E só podemos descobrir nossas almas somente por meio do espelho daqueles que olham para nós. Não há profundidade na vida sem a profundidade da vida em comum. Normalmente vivemos na história tanto na superfície como na nossa individualidade. Entendemos a nossa existência histórica como ela aparece para nós, e não como ela realmente é. O fluxo diário de notícias, as ondas de propaganda e de convenções e sensacionalismo mantêm nossas mentes ocupadas. O barulho dessas águas rasas nos impede de escutar o som das profundezas, aos sons do que realmente acontece na base da nossa estrutura social, no ardoroso coração das massas, e nas mentes combativas daqueles que são sensíveis às mudanças históricas.

Nossos ouvidos são surdos aos lamentos da profundidade social, assim como aos lamentos da profundeza das nossas almas. Deixamos sozinhas as vítimas feridas do nosso sistema social, depois de as termos machucado sem ouvir os seus lamentos, em meio ao barulho das nossas vidas diárias, assim como fazemos com nossas próprias almas que sangram. Acreditamos que vivemos em um período de progresso inevitável rumo à uma humanidade melhor. Entretanto, nas profundezas da nossa estrutura social, as forças destrutivas já reuniram forças. Uma vez, pareceu que a razão humana havia conquistado a natureza e a história. Mas isso foi apenas na superfície; e nas profundezas da nossa comunidade, a rebelião contra a superfície já havia começado. Produzimos ferramentas e meios ainda melhores e perfeitos para a vida da humanidade. Mas nas profundezas elas já haviam se tornado meios e ferramentas para a auto-destruição do homem. Décadas atrás mentes proféticas olharam para as profundezas. Pintores expressaram seus sentimentos acerca da catástrofe que estava por vir rompendo a superfície do homem e da natureza em suas pinturas. Poetas usaram palavras e ritmos estranhos, ofensivos, na tentativa de jogar alguma luz no contraste entre o que parecia ser e o que realmente era. Ao lado de uma psicologia da profundidade, surgiu uma sociologia da profundidade. Mas é somente agora, na década em que o terremoto social mais horrível de todos os tempos apanhou a humanidade como um todo, que os olhos das nações se abriram para a profundidade diante delas, e para a verdade sobre sua existência histórica. Ainda existem pessoas, mesmo em lugares altos, que afastam seus olhos dessa profundeza, e desejam retornar à superfície rompida como se nada tivesse acontecido. Mas nós que conhecemos a profundidade do que aconteceu, não devemos nos contentar em parar no nível que alcançamos. Podemos ficar desesperados e nos desprezarmos. Ao invés disso, vamos mergulhar ainda mais fundo nos fundamentos da nossa vida histórica, na profundidade última da história.

O nome desse fundamento infinito e inexaurível da história é Deus É isso que a palavra significa, e é para isso que as palavras Reino de Deus e Providência Divina apontam. E se essas palavras não tem muito significado para você, mude-as, e fale sobre a profundidade da história, sobre o fundamento e o objetivo da nossa vida social, e do que mais você levar a sério, sem reservas, em suas atividades morais e políticas. Talvez você devesse chamar essa profundidade de esperança, simplesmente esperança. Pois se você encontrar esperança nos fundamentos da história, estará unido aos grandes profetas que foram capazes de olhar nas profundezas de seu tempo, e que tentaram escapar delas, pois não conseguiam suportar o horror de suas visões, e que mesmo assim tinham a força de olhar para um nível mais profundo para então descobrir ali esperança. A esperança deles não os fez se sentirem envergonhados. E nenhuma esperança deve nos deixar envergonhados; se não a encontrarmos na superfície onde os tolos cultivam vãs expectativas, a encontraremos na profundeza onde aqueles com o coração trêmulo e contrito recebem a força de uma esperança que é verdadeira.

Essas últimas palavras devem nos levar ao outro significado que as palavras “profundo” e “profundeza” tem, tanto na linguagem secular quando na religiosa: a profundeza do sofrimento que é a porta, a única porta, à profundidade da verdade. Esse fato é óbvio. É confortável viver na superfície enquanto essa permanece inalterada. É doloroso cair dela e acabar em algum fundamento desconhecido. A incrível resistência contra esse ato em todo ser humano, e os vários pretextos inventados para evitar esse caminho à profundeza são naturais. A dor de olhar para sua própria profundidade é intensa demais para a maioria das pessoas. Elas prefeririam retornar à devastada superfície de suas antigas vidas e idéias.

O mesmo é verdade sobre os grupos sociais que criam todos os tipos de ideologias e racionalizações na tentativa de resistir àqueles que deveriam levá-los ao caminho da profundeza da sua existência social. Eles preferem cobrir as brechas na sua superfície com pequenos remendos, do que cavar adentro. Os profetas de todos os tempos podem nos contar acerca da raivosa resistência que eles provocam com a sua ousadia de expor as profundezas do julgamento social e esperança social. E quem pode realmente suportar a profundeza última, o fogo ardente no fundamento de todo o ser, sem dizer em conjunto com o profeta, “ai de mim! Pois estou perdido. Os meus olhos viram o Senhor dos Exércitos!”

Nossa tentativa de evitar o caminho que leva a tal profundidade do sofrimento, e o uso de pretextos para evitá-lo é natural. Um dos métodos, muito superficial, é afirmar que as coisas profundas são sofisticadas, ininteligíveis para uma mente sem erudição. Mas a marca da profundidade real é a sua simplicidade. Se você disser “isso é profundo demais pra mim; não consigo compreender”, está se auto-enganando. Pois você deve saber que nada de real importância é profundo demais para qualquer um. Não é por conta da profundidade, mas sim por conta do desconforto que causa que você se coíbe da verdade. Não vamos confundir as coisas sofisticadas com as coisas profundas da vida. As coisas sofisticadas não nos preocupam de maneira última, e não importa se as compreendemos ou não. Mas as coisas profundas devem sempre nos importar, pois importa infinitamente se somos tocados por elas ou não.

Há um fato ainda mais sério sobre o caminho à profundeza que pode ser usado como uma desculpa por aqueles que querem evitá-lo. O profundo, em linguagem religiosa, é geralmente usado para exprimir o lugar onde se encontram as forças do mal, os poderes demoníacos, de morte e inferno. O caminho para as profundezas não é um caminho para o reino controlado por essas forças? Elementos de destruição e morbidez não estão na ânsia pela profundeza? Quando um amigo americano expressou a um grupo de refugiados alemães a sua admiração pela profundidade alemã, nos perguntamos se deveríamos aceitar esse elogio. Não foi essa profundidade o solo do qual saltaram a maioria das forças demoníacas da história moderna? Essa profundidade não é mórbida e destrutiva?

Permitam-me responder à essas questões contando a vocês um antigo e belo mito: quando a alma deixa o corpo, deve passar por muitas esferas onde as forças demoníacas predominam; e somente a alma que conhece a palavra correta e poderosa pode continuar seu caminho à última profundidade do Fundamento Divino. Nenhuma alma pode fugir desses testes. Se considerarmos as batalhas dos santos de todos os tempos, dos profetas e dos reformadores, e dos grandes criadores em todos os reinos, podemos reconhecer a verdade desse mito. Todos devem encarar as coisas profundas da vida. Ser perigoso não é desculpa. O perigo deve ser derrotado pelo saber da palavra libertadora. O povo alemão e muitas pessoas de todas as nações não conheciam a palavra, e sendo assim, perdendo a última e salvadora profundidade, foram pegos pelas forças malignas da profundeza.

Não existe desculpa que nos permita evitar a profundidade da verdade, o único caminho que se encontra nas profundezas do sofrimento. Quer o sofrimento venha de fora e o tomamos sobre nós como o caminho para a profundidade, ou quer ele seja escolhido voluntariamente como o único caminho para as coisas profundas; quer ele seja o caminho da humildade, ou o caminho da revolução; quer a Cruz seja interna, ou externa, o caminho corre em sentido contrário à maneira que vivíamos e pensávamos anteriormente. Por isso Isaías louva Israel, o Servo de Deus, nas profundezas de seu sofrimento; e por isso Jesus chama de abençoados aqueles que estão na profunda tristeza e perseguição, famintos e sedentos, tanto no corpo quanto no espírito; e por isso Ele ordena a perda das nossas vidas pelo bem das nossas vidas. Por isso dois grandes revolucionários, Thomas Müntzer do século dezesseis e Karl Marx do século dezenove, falam em termos parecidos sobre a vocação daqueles que estão nos limites da humanidade, nas profundezas do vazio, como Müntzer chama; nas profundezas da desumanidade, como Marx chama o proletariado, a quem apontou como os portadores da salvação do futuro.

E como é nas nossas vidas, também é em nosso pensamento: cada elemento parece ser invertido. A religião e o cristianismo tem sido frequentemente acusados de apresentarem um caráter irracional. Certamente muita estupidez, superstição e fanatismo tem se conectado com eles. O comando de sacrificar o intelecto de alguém é mais demoníaco do que divino. O homem deixa de ser homem se ele deixar de ter um intelecto. Mas na profundeza do sacrifício, do sofrimento e da Cruz, nosso raciocínio é exigido. Cada passo para dentro da profundidade do pensamento é um afastamento da superfície dos antigos pensamentos. Quando esse afastamento ocorre em homens como Paulo, Agostinho e Lutero, um sofrimento tão extremo está envolvido que ele é experimentado como a morte e o inferno. Mas eles aceitaram tal sofrimento como o caminho para as coisas profundas de Deus, como o caminho espiritual, como o caminho para a verdade. Eles expressaram a verdade que visualizaram em palavras espirituais, em palavras que são contrárias à toda razão superficial, mas harmoniosas com a profundeza da razão, que é divina. A linguagem paradoxal da religião revela o caminho para a verdade como o caminho para a profundidade, e portanto, como um caminho de sofrimento e sacrifício. Somente aquele que está disposto a pegar esse caminho é capaz de compreender os paradoxos da religião.

A última coisa que quero dizer sobre o caminho da profundidade é sobre um desses paradoxos. O fim do caminho é alegria. E alegria é mais profunda que o sofrimento. Ela é última. Permitam-me expressar isso nas palavras de um homem que, numa apaixonada luta pela profundidade, foi pego pelas forças destrutivas e não conhecia a palavra para destruí-las. Friedrich Nietzsche escreveu: “O mundo é profundo, e mais profundo do que o dia pode observar. Profunda é a sua angústia. A alegria é ainda mais profunda do que a dor pode ser. A angústia diz: Portanto, vá! Mas alegrias desejam toda a eternidade, desejam eternidade profunda, intensa”.

Alegria eterna é o fim dos caminhos de Deus. Essa é a mensagem de todas as religiões. O Reino de Deus é paz e alegria. Essa é a mensagem do cristianismo. Mas a alegria eterna não será alcançada vivendo na superfície. Pelo contrário, é atingida ao romper a superfície, ao penetrar as coisas profundas de nós mesmos, do nosso mundo, e de Deus. O momento no qual alcançamos a profundidade última de nossas vidas é o momento no qual podemos experimentar a alegria que tem a eternidade em si, a esperança que não pode ser destruída, e a verdade na qual vida e morte são construídas. Pois na profundeza está a verdade; e na profundeza está a esperança; e na profundeza está a alegria.



[1] “Deep” e “depth”. Na versão em inglês do texto, e da Bíblia utilizada por Tillich, o termo usado no versículo de Coríntios é “deep”, enquanto para o português, Almeida utiliza o termo “profundeza” (depth) em ambos os versículos. Seguindo a tradução literal do inglês, o versículo ficaria “… porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as coisas profundas de Deus”. Por isso, essa pequena troca de termos. (N. do T.)

[2] Aqui, Tillich ainda utiliza ainda o termo “profound”, que no inglês pode se referir também à uma questão de profundidade enquanto intensidade.

fev 22

Capítulo 6: Fugindo de Deus

Capítulo 6: Fugindo de Deus

SENHOR, tu me sondaste, e me conheces. Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento. Cercas o meu andar, e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos. Não havendo ainda palavra alguma na minha língua, eis que logo, ó SENHOR, tudo conheces. Tu me cercaste por detrás e por diante, e puseste sobre mim a tua mão. Tal ciência é para mim maravilhosíssima; tão alta que não a posso atingir. Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face? Se subir ao céu, lá tu estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também. Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, Até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá. Se disser: Decerto que as trevas me encobrirão; então a noite será luz à roda de mim. Nem ainda as trevas me encobrem de ti; mas a noite resplandece como o dia; as trevas e a luz são para ti a mesma coisa; Pois possuíste os meus rins; cobriste-me no ventre de minha mãe. Eu te louvarei, porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem. Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui feito, e entretecido nas profundezas da terra. Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia. E quão preciosos me são, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grandes são as somas deles! Se as contasse, seriam em maior número do que a areia; quando acordo ainda estou contigo. O Deus, tu matarás decerto o ímpio; apartai-vos portanto de mim, homens de sangue. Pois falam malvadamente contra ti; e os teus inimigos tomam o teu nome em vão. Não odeio eu, ó SENHOR, aqueles que te odeiam, e não me aflijo por causa dos que se levantam contra ti? Odeio-os com ódio perfeito; tenho-os por inimigos. Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno.
Salmo 139.

“Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face?” Essas são as palavras centrais do grande Salmo 139. Elas citam em forma de pergunta a inescapável Presença de Deus. Vamos considerar essa citação, e as poderosas imagens nas quais o salmista tenta expressá-la. Ele é Deus porque é inescapável. E só porque é inescapável é Deus.

Não há lugar ao qual possamos fugir de Deus que seja fora de Deus. “Se subir ao céu, lá tu estás”. Nos parece muito natural que Deus esteja no céu, e muito estranho para nós que subíssemos ao céu para fugir dEle; mas é exatamente isso o que idealistas de todas as eras tentaram fazer. Eles tentaram saltar em direção ao céu da perfeição e verdade, da justiça e da paz, onde Deus não é desejado. Esse céu é um céu feito pelos homens, sem a direção da inquietação do Espírito Divino, e sem a presença julgadora da Face Divina. Mas tal lugar é um “não lugar”, é uma “utopia”, uma ilusão idealística. “Se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também.” Inferno ou Sheol, a habitação dos mortos, poderia ser o lugar correto para se esconder de Deus. E é para lá que aqueles que anseiam pela morte, na tentativa de escapar das Exigências Divinas, tentam fugir. Estou convencido que não existe alguém entre nós que, ao menos uma vez, não desejou se libertar do fardo de sua existência saindo desta. E eu sei que existem alguns entre nós que tem tal desejo como uma tentação diária. Mas todos sabem, no fundo de seu coração, que a morte não vai propiciar uma fuga da exigência interna feita sobre si. “Se tomar as asas da alva, se habitar nas extremidades do mar, Até ali a tua mão me guiará e a tua destra me susterá.” Voar para os confins da Terra não seria escapar de Deus. Nossa civilização tecnológica tenta tal coisa, na tentativa de ser libertada de um conhecimento que carece de um centro de vida e significado. A maneira moderna de fugir de Deus é correr adiante e adiante, tão rápido quanto os raios de sol, para conquistar mais e mais espaço em todas as direções, em todas as maneiras humanamente possíveis, estando sempre ativo, sempre planejando, e sempre preparando. Mas a Mão de Deus cai sobre nós; e ela tem caído pesada e destrutivamente sobre a nossa civilização fugitiva; nosso vôo tem mostrado ser em vão. “Se disser: Decerto que as trevas me encobrirão; então a noite será luz à roda de mim. Nem ainda as trevas me encobrem de ti; mas a noite resplandece como o dia”. Fugir na escuridão na tentativa de esquecer Deus, não é fugir dEle. Durante algum tempo, podemos até arrancá-Lo de nossa consciência, rejeitá-Lo, refutá-Lo, argumentar de maneira convincente a não existência de Deus, e viver confortavelmente sem Ele. Entretanto, em última análise, sabemos que não é a Ele que rejeitamos e esquecemos, está mais para uma imagem distorcida dEle. E sabemos que podemos arrazoar contra Deus somente porque Ele nos impele a atacá-Lo. Não há como fugir de Deus por meio do esquecimento.

“Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face?” O poeta que escreveu essas palavras para descrever a fútil tentativa do homem de escapar de Deus certamente acreditava que o homem desejava escapar. Ele não está sozinho em sua convicção. Homens de todos os tipos, profetas e reformadores, santos e ateus, crentes e descrentes, têm a mesma experiência. É seguro dizer que o homem que nunca tentou fugir de Deus nunca experimentou o Deus Que é realmente Deus. Quando eu falo de Deus, não me refiro aos muitos deuses que nós mesmos fazemos, aos deuses com os quais podemos viver confortavelmente. Pois não há motivo para fugir de um deus que é um retrato perfeito de tudo que é bom no homem. Por que tentar escapar de tal ideal tão remoto? E não há razão para fugir de um deus que seja simplesmente o universo, ou as leis da natureza, ou o curso da história. Por que tentar escapar de uma realidade da qual somos parte? Não há motivos para fugir de um deus que não seja nada mais do que um pai benevolente, um pai que garante a nossa imortalidade e final feliz. Por que tentar fugir de alguém que nos serve tão bem? Não, esses não são retratos de Deus, mas sim do homem, tentando fazer Deus à sua imagem e para seu próprio conforto. Eles são produtos da imaginação humana, e pensamentos desejosos, justamente negados por qualquer ateu honesto. Um deus que podemos facilmente encarar, um deus do qual não temos que nos esconder, um deus que não odiamos em determinados momentos, um deus cuja destruição nós nunca desejamos, não é Deus, e não é realidade.

Friedrich Nietzsche, o famoso ateu e ardoroso inimigo da religião e do cristianismo, sabia mais do poder da idéia de Deus do que muitos cristãos fiéis. Em uma história simbólica, quando Zaratustra, o profeta de uma humanidade melhor, diz ao Mais Feio dos Homens, o assassino de Deus, “Você não pode suportá-lo te olhando, sempre olhando você através e através… Você vingou-se da testemunha… Você é o assassino de Deus”. O Mais Feio dos Homens concorda com Zaratustra e responde, “Ele devia morrer”. Pois Deus, de acordo com o Mais Feio dos Homens, parece com olhos que tudo vêem; Ele espreita o fundamento e as profundezas do homem, sua vergonha e feiúra ocultas. O Deus que tudo vê, inclusive o homem, é o Deus que deve morrer. O homem não consegue suportar tal Testemunha.

Somos nós capazes de suportar essa Testemunha? O salmista diz, “SENHOR, tu me sondaste, e me conheces”. Quem pode suportar ser tão conhecido, até mesmo dentro dos mais escuros cantos de sua alma? Quem não quer fugir de tal Testemunha? E quem não quer se tornar alguém que possa negar a Deus na teoria e na prática, um ateu? “Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; … Cercas o meu andar, e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos”. Deus sabe o que somos; e Ele sabe o que fazemos. Quem não odiaria uma companhia que está sempre presente, em todos os caminhos e em todos os lugares de descanso? Quem não quer fugir da prisão que é essa companhia perpétua? “…de longe entendes o meu pensamento… Não havendo ainda palavra alguma na minha língua, eis que logo, ó SENHOR, tudo conheces”. A Presença Divina é espiritual. Ela penetra no mais profundo de nossos espíritos. Toda nossa vida interior, nossos pensamentos e desejos, nossos sentimentos e imaginações, são conhecidos por Deus. O lugar final de fuga, o mais íntimo dos lugares, é guardado por Deus. Esse fato é o mais difícil de ser aceito. A resistência humana contra essa observação implacável dificilmente é quebrada. Todo psiquiatra e confessor é familiarizado com a tremenda força de resistência de cada personalidade contra qualquer auto-revelação, por mais banal que seja. Ninguém quer ser conhecido, mesmo sabendo que sua saúde e salvação dependem de tal conhecimento. Não queremos nem mesmo conhecer a nós mesmos. Tentamos esconder as profundezas das nossas almas de nossos próprios olhos. Nos recusamos a ser nossas próprias testemunhas. Como podemos então encarar um espelho no qual nada pode ser escondido?

O Mais Feio dos Homens está certo? O Mais Feio dos Homens é um símbolo da feiúra em cada um de nós, e o símbolo da nossa vontade de esconder ao menos alguma coisa de Deus e de nós mesmos. O Mais Feio dos Homens parece estar certo, quando consideramos o apoio que ele recebe dos santos, teólogos e reformadores. Martinho Lutero foi fortemente dominado, como o salmista, pela penetrante Presença de Deus. Ele disse que em toda criatura Deus é mais profundo, mais íntimo, e mais presente do a própria criatura é para si mesma, e que Deus abrange todas as coisas, está em todas as coisas. Mas essa íntima Presença de Deus criou o mesmo sentimento em Lutero que em Nietzsche. Ele desejou que Deus não fosse Deus. “Eu não amei Deus. Eu odiei o Deus justo, e fui indigno perante Ele, se não numa revolta ímpia, ao menos numa blasfêmia silenciosa”. Seguindo São Bernardo, o grande mestre da auto-observação religiosa, ele continua, “Não podemos amar a Deus, e portanto não podemos desejar que Ele exista. Não podemos querer que Ele seja o mais sábio… e o mais poderoso.” Lutero ficou terrivelmente chocado quando ele reconheceu esse ódio por Deus dentro de si mesmo. Ele não foi capaz de escapar astutamente como os seus mestres teológicos, que recomendavam a ele que não pensasse constantemente na Presença de Deus, e então evitasse a blasfêmia de odiar a Deus. Lutero sabia, em conjunto com o salmista, que nenhuma fuga é possível. “Tu me cercaste por detrás e por diante, e puseste sobre mim a tua mão”. Deus está em cada lado de nós, à frente e atrás. Não há outro caminho.

O piedoso homem do Antigo Testamento, o santo místico da Idade Média, o reformador da Igreja Cristã, e o profeta do ateísmo, estão todos unidos por meio dessa tremenda experiência humana: o homem não consegue suportar o Deus que É realmente Deus. O homem tenta escapar de Deus e O odeia, pois não pode escapar dEle. O protesto contra Deus, a vontade de que não haja Deus, e a luta para o ateísmo são todos elementos genuínos da religião profunda. E somente na base desses elementos a religião tem significado e poder.

A teologia cristã e as instruções religiosas falam da Onipresença Divina, que é a doutrina de que Deus está em todos os lugares, e da Onisciência Divina, que é a doutrina de que Deus sabe de tudo. É difícil de evitar esses conceitos no pensamento e na educação religiosa. Porém, eles são tão úteis quanto perigosos. Eles nos fazem entender a Deus como uma coisa com qualidades sobrehumanas, onipresente como um campo de força elétrico, e onisciente como um cérebro superhumano. Tais conceitos de “Onipresença Divina” e “Onisciência Divina” transformam uma irresistível experiência religiosa em uma colocação abstrata e filosófica, que pode ser aceita ou rejeitada, definida, redefinida, e substituída. Ao fazer de Deus um objeto ao lado de outros objetos, a existência e a natureza que são questões de argumentação, a teologia apóia a fuga para o ateísmo. Encoraja aqueles que estão interessados em negar a Testemunha ameaçadora de nossa existência. O primeiro passo para o ateísmo é sempre uma teologia que puxa Deus para o nível das coisas incertas. O jogo do ateu fica muito fácil. Pois ele está correto ao destruir esse fantasma e todas as suas qualidades fantasmagóricas. E pelo ateu teórico estar correto nessa destruição, os ateus práticos (todos nós) queremos usar seu argumento para apoiar nossa própria tentativa de fugir de Deus.

Vamos então esquecer desses conceitos, enquanto conceitos, e tentar achar seus significados verdadeiros dentro da nossa própria experiência. Todos sabemos que não podemos nos separar a qualquer momento do mundo ao qual pertencemos. Não há uma intimidade ou isolamento finais. Estamos sempre seguros e compreendidos por algo que é maior do que nós, que tem direito sobre nós, e que exige resposta de nós. Os movimentos mais íntimos dentro das profundezas das nossas almas não são completamente nossos. Pois eles também pertencem aos nossos amigos, à humanidade, ao universo, e à Base de todo o ser, o objetivo da nossa vida. No fim das contas, nada pode ser escondido. Sempre é refletido no espelho no qual nada pode ser escondido. Alguém realmente acredita que seus pensamentos e desejos mais secretos não se manifestam no todo do ser, ou que os eventos no interior da escuridão de seu subconsciente ou no isolamento de sua consciência não produz repercussões eternas? Alguém realmente acredita que possa escapar da responsabilidade pelo que fez e pensou em segredo? Onisciência significa que nosso mistério é manifesto. Onipresença significa que nossa intimidade é pública. O centro de todo o nosso ser está envolvido no centro de todos os seres; e o centro de todos os seres está no centro do nosso próprio ser. Eu não acredito que qualquer homem sério possa negar essa experiência, não importando como ele a expresse. E se ele teve essa experiência, ele também encontrou algo dentro dele que o faça escapar das conseqüências. Pois o homem não é igual à sua própria experiência; ele tenta esquecê-la; e ele sabe que não pode esquecer.

Há alguma libertação dessa tensão? É possível superar o ódio por Deus e a vontade de que não haja Deus, de que não haja homem? Há alguma maneira de triunfar sobre nossa vergonha perante a Testemunha perpétua, e sobre o desespero que é o fardo da nossa responsabilidade inescapável? Nietzsche oferece uma solução que mostra a total impossibilidade do ateísmo. O Mais Feio dos Homens, o assassino de Deus, se sujeita a Zaratustra, pois Zaratustra o reconheceu, e o enxergou profundamente com um entendimento divino. O assassino de Deus encontra Deus no homem. Ele não conseguiu matar Deus, afinal de contas. Deus retornou em Zaratustra, e no novo período da história que Zaratustra anuncia. Deus sempre é revivido em alguém ou alguma coisa; ele não pode ser assassinado. A história de cada ateísmo é igual.

O salmista oferece outra solução. “Eu te louvarei, porque de um modo assombroso, e tão maravilhoso fui feito; maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem. Os meus ossos não te foram encobertos, quando no oculto fui feito, e entretecido nas profundezas da terra”. Utilizando da antiga idéia mitológica de que os homens são formados no abismo abaixo da terra, ele aponta para o mistério da criação, não da criação em geral, mas da criação de seu próprio ser. O Deus do qual não se pode fugir é a Base de seu ser. E esse ser, sua natureza, alma, e corpo, é um trabalho de infinita sabedoria, terrível e maravilhosa. A admiração da Sabedoria Divina supera o horror da Presença Divina em sua passagem. Ela aponta para a presença amigável de uma sabedoria infinitamente criativa. É esse estado de espírito que geralmente perpassa o Antigo Testamento. Um grande estudioso, com quem conversei uma vez sobre a vontade de morte em todas as vidas, exibiu o mesmo estado de espírito, quando disso, “não vamos esquecer que a vida também é amável”. Há graça na vida. De outra forma, não poderíamos viver. Os olhos da Testemunha que não podemos suportar também são os olhos dAquele da sabedoria infinita e do amparo benevolente. O centro do ser, no qual nosso próprio centro está envolvido, é a fonte da beleza graciosa que encontramos de novo e de novo nas estrelas e montanhas, nas flores e animais, nas crianças e nas pessoas.

Mas ainda há algo mais na solução do salmista. Ele não considera somente a Base criativa de seu ser. Ele também olha para o destino criativo de sua vida. “Os teus olhos viram o meu corpo ainda informe; e no teu livro todas estas coisas foram escritas; as quais em continuação foram formadas, quando nem ainda uma delas havia”. O salmista se utiliza de outro símbolo mítico, que é o registro de eventos terrenos em um livro celestial. Ele expressa poeticamente o que hoje chamamos de acreditar em um sentido para a nossa vida. Nossos dias estão escritos e contados; não são meramente acidentais. Aquele que nos vê mais intimamente olha para a visão de toda a nossa vida. Nós pertencemos a esse todo; temos um lugar de extrema importância nisso. Enquanto indivíduos e enquanto grupo, temos um destino final. E sempre que sentimos esse destino final, aparecendo ele como grande ou insignificante, estamos cientes de Deus, a Base e o centro de todo significado. Podemos nos juntar aos lamentos de admiração do salmista: “E quão preciosos me são, ó Deus, os teus pensamentos! Quão grandes são as somas deles! Se as contasse, seriam em maior número do que a areia; quando acordo ainda estou contigo”. O salmista, assim, vence o horror do espelho que tudo reflete, e da Testemunha que nunca dorme, por meio do reconhecimento do mistério infinito da vida, sua Base e significado.

Mas repentinamente, no clímax de sua meditação, o salmista se afasta de Deus. Ele se lembra de que há um elemento negro no contexto da sua vida – inimizade com Deus, perversidade, e ações de sangue. E assim que esse elemento perturba seu contexto, ele pede a Deus para erradicá-lo. Em uma raiva súbita, ele grita, “O Deus, tu matarás decerto o ímpio; apartai-vos portanto de mim, homens de sangue. Pois falam malvadamente contra ti; e os teus inimigos tomam o teu nome em vão. Não odeio eu, ó SENHOR, aqueles que te odeiam, e não me aflijo por causa dos que se levantam contra ti? Odeio-os com ódio perfeito; tenho-os por inimigos”. Essas palavras devem perturbar qualquer um que pense que o problema da vida pode ser resolvido por meditação e elevação religiosa. O ânimo é bem diferente das palavras anteriores. O louvor transforma-se em maldição. E o tremor do coração diante do Deus que tudo vê é substituído pela ira com os homens. Essa ira faz com que o salmista sinta que ele é igual a Deus, o Deus que ele queria fugir para a escuridão e a morte. Deus deve odiar aqueles que ele odeia; e os inimigos de Deus devem ser seus inimigos. Ele havia acabado de falar da distância infinita entre seus pensamentos e os Pensamentos de Deus; mas ele esqueceu. O fanatismo religioso aparece, esse fanatismo que inflama a arrogância das igrejas, a crueldade dos moralistas, e a inflexibilidade dos ortodoxos. O pecado da religião aparece em um dos maiores Salmos. É esse pecado que distorceu a história da Igreja e a visão do Cristianismo, e que não foi totalmente evitado nem mesmo por Paulo e João. Claro, nós, cujas experiências religiosas são pobres e cujo sentir de Deus é fraco não devemos julgar tão severamente aquelas vidas queimadas com o fogo da Presença Divina e que espalharam esse fogo ardentemente por todo o mundo. Mesmo assim, o pecado da religião é real; e contradiz o Espírito de Deus, que proibiu seus discípulos várias vezes de odiarem Seus inimigos como os inimigos de Deus.

Porém, uma mudança de pensamento e de sentimento traz repentinamente o salmista de volta ao começo de seu poema. Ele sente que algo pode estar errado no que ele proferiu. Ele não sabe o que está errado; mas está certo de que Deus sabe. E então ele concluiu com uma das maiores orações de todos os tempos:

“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno”. Nesse momento ele pede a Deus para fazer o que, de acordo com as primeiras palavras do salmo, ele implacavelmente faz de qualquer maneira. O salmista superou sua hesitação entre a vontade de fugir de Deus e a vontade de ser igual com Deus. Ele chega a conclusão de que a solução final reside no fato de que a Presença da Testemunha, a Presença do centro de toda a vida dentro do centro de sua vida, implica tanto um ataque radical na sua existência, e no significado último de sua existência. Somos conhecidos em uma profundidade da escuridão na qual nós mesmos não nos atrevemos nem a olhar. E ao mesmo tempo, somos vistos em uma altura de plenitude que ultrapassa nossa maior visão. A tensão infinita é a atmosfera na qual a religião vive. Nessa tensão Lutero venceu seu ódio por Deus, quando descobriu no Cristo Crucificado o símbolo perfeito para a nossa situação humana. É nessa tensão que vive o homem moderno, mesmo embora ele possa ter perdido o caminho para a religião tradicional. Um ser humano poder ser julgado em última instância se ele alcançou e se pode aguentar ou não essa tensão. Suportá-la é mais horrível e mais difícil do que qualquer outra coisa no mundo. Porém, suportar essa tensão é a única maneira pela qual podemos alcançar o significado, a alegria e a liberdade última em nossas vidas. Cada um de nós é chamado a suportar. Que cada um de nós tenha a força e a coragem de aceitar essa vocação! Por essa vocação é que somos chamados enquanto homens.

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fev 13

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fev 13

Capítulo 5: Meditação: O Mistério do Tempo

Capítulo 5: Meditação: O Mistério do Tempo

Vamos meditar no mistério do tempo. Agostinho aponta para as profundezas desse mistério, quando diz, “Se ninguém me perguntar sobre isso, eu sei. Se eu quero explicar a alguém que me pergunta sobre isso, eu não sei.” Há algo inexprimível acerca do tempo, mas isso não impediu que as mais profundas mentes religiosas pensassem ou falassem sobre. Não é uma vã especulação quando o escritor da primeira parte do Salmo 90 confronta a eternidade de Deus com a transitoriedade da existência humana. A experiência melancólica da finitude humana o leva a proferir as tremendas palavras do salmo. Não é uma curiosidade vazia quando Agostinho tenta, em seu livro mais pessoal, suas Confissões, penetrar no terreno da nossa temporalidade. Não estamos fazendo uma afirmação abstrata, mas sim expressando um sentimento profundamente religioso quando cantamos, “O tempo, como um fluxo constante, carrega todos os seus filhos”*. Não é mera filosofia, mas um sentimento trágico de vida, que impele os primeiros filósofos gregos a dizerem que todas as coisas devem retornar às suas origens, sofrendo punições, “de acordo com a ordem do tempo”. Não é um mero interesse da teoria sistemática que o Quarto Evangelho use de novo e de novo a frase “vida eterna” enquanto expressão do maior bem, que é sempre presente em Cristo. Foi um evento religioso quando Mestre Eckhardt mostrou o eterno agora dentro do fluxo do tempo, e quando Soren Kierkegaard mostrou a infinita significância de cada momento como o agora da decisão.

O tempo é inesgotável como o fundamento da própria vida. Mesmo as maiores mentes descobriram apenas um aspecto dele. Mas todos, até mesmo a mente mais simples, apreende o significado do tempo, ou seja, sua própria temporalidade. Ele pode não ser capaz de expressar seu conhecimento acerca do tempo, mas nunca se separa de seu mistério. Sua vida, e a vida de cada um de nós, é permeada em todos os momentos, em toda experiência, e em toda expressão, pelo mistério do tempo. O tempo é nosso destino. Tempo é nossa esperança. Tempo é nosso desespero. E o tempo é o espelho no qual vemos a eternidade. Deixe-me mostrar três dos muitos mistérios do tempo: seu poder de devorar tudo que está na sua esfera; seu poder de receber a eternidade de si mesmo; e seu poder de levar a um fim último, uma nova criação.

A humanidade sempre percebeu que há algo triste em relação ao fluxo do tempo, um mistério que não podemos resolver, cuja solução que não podemos encarar. Viemos de um passado que não existe mais; vamos para um futuro que ainda não é; nosso é o presente. O passado é nosso somente enquanto ainda o temos presente; e o futuro só é nosso enquanto o temos já presente. Possuímos o passado pela memória, e o futuro por antecipação. Mas qual é a natureza do presente? Se o olharmos de perto, devemos dizer: é um ponto sem extensão, o ponto no qual o futuro se torna o passado; quando dizemos para nós mesmos, “esse é o presente”, o momento já foi absorvido pelo passado. O presente desaparece no exato instante que tentamos agarrá-lo. O presente não pode ser pego; é sempre único. Então parece que não temos nada de real, nem passado nem futuro, nem mesmo o presente. Portanto, há um caráter sonhador acerca da nossa existência, que o salmista indica, e que os visionários religiosos descreveram de diferentes maneiras.

Entretanto, o tempo não nos dá nem mesmo um lugar onde ficar, se não fosse caracterizado por aquele segundo mistério, seu poder de receber eternidade. Não há presente no simples correr do tempo; mas o presente é real, como a nossa experiência testemunha. E é real pois a eternidade acaba no tempo e dá a ele um presente real. Não podemos nem dizer agora, se a eternidade não eleva aquele momento acima de seu tempo-contínuo. A eternidade é sempre presente; e sua presença é o motivo de termos o presente. Quando o salmista olha para Deus, para Quem mil anos são como um dia, ele está olhando para essa eternidade que sozinha dá a ele um lugar onde ficar, e que agora tem realidade e significância infinitas. A cada momento em que dizemos “agora”, algo temporal e algo eterno se unem. Sempre que um ser humano disser, “agora estou vivendo; agora estou realmente presente”, resistindo à corrente que leva o futuro ao passado, a eternidade é. Em cada “agora” a eternidade se manifesta; e cada “agora” real, a eternidade está presente. Vamos pensar por um momento na maneira em que estamos vivendo nossas vidas no atual período da história. Não estamos perdendo o presente real por estarmos sempre indo adiante, na nossa correria constante, no nosso ativismo infatigável, para o futuro? Supomos que o futuro seja melhor do que qualquer presente; mas há sempre outro futuro além do próximo futuro, de novo e de novo sem um presente, ou seja, sem eternidade. De acordo com o quarto Evangelho a vida eterna é um dom presente: ele, que escuta a Cristo, já tem a eternidade. Não está mais sujeito ao agir do tempo. Nele o agora se torna o agora eterno. Perdemos o “agora” real, o “agora” eterno; nós, temo eu, perdemos a vida eterna no que ela cria o presente real.

Há outro elemento no tempo, seu terceiro mistério, que nos faz olhar para o futuro; pois o tempo não retorna, não se repete: ele segue adiante; é sempre único; sempre cria o novo. Há dentro dele uma direção para o fim, desconhecido, que nunca será alcançado no próprio tempo, sempre planejando e sempre fugindo. O tempo corre para o eterno futuro. Esse é o maior dos mistérios do tempo. Esse é o mistério do qual os profetas, Cristo, e os Apóstolos falaram. O eterno é a solução do mistério do tempo. O tempo não vai para uma auto-repetição infinita, nem para um retorno vazio ao seu início. O tempo não é sem sentido. Ele tem uma salvação escondida. Tem o objetivo escondido do Reino de Deus. Ele traz uma realidade escondida à nova criação. O significado infinito de cada momento é esse: em que decidimos, e se decide sobre, o nosso futuro eterno.

*No original: “Time like an ever-rolling stream bears all its sons away”. A citação é do hino “Our God, our help in ages past”, de Isaac Watts, teólogo e compositor inglês. (N. do T.)

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